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đŸ’« Pontes Imortais ― Capítulo 19

Abestado

Boa tarde, vortexianos! Estamos prontos pra mais um capĂ­tulo? Prontos ou nĂŁo, ele chegou!

No capítulo anterior
 As mariposas-de-sereno estão morrendo e Yan foi averiguar a situação com Kuí, sem saber que o Instrutor tem seus segredos. Enquanto isso, Li’a usou seu carisma para conquistar a confiança de Oz. O que poderia dar errado? Em São Paulo, Vi parece ter convencido Yue a ser mais flexível e Tomás já está informado. Onde estava Yue quando recebeu a mensagem deles? Vamos espiar?

A mĂșsica para este capĂ­tulo Ă© Lenha, do Zeca Baleiro!

Capítulo 19 — Abestado

SĂŁo Paulo, 2023

“Ei abestado, olha pra frente! 🌾”

Largado na comedoria do Sesc Paulista com uma xĂ­cara de cappuccino pela metade e a mochila abandonada na cadeira ao lado, Yue tinha a sensação de ter cochilado com os olhos abertos. O barulho do celular vibrando sobre a mesa nĂŁo foi tĂŁo efetivo para acordĂĄ-lo quanto aquela mensagem. 

Erguendo a cabeça, encontrou LĂłtus sentado do outro lado, respondendo com um menear de cabeça ao aceno empolgado do rapaz. 

― Vou sentar aĂ­! ― LĂłtus anunciou em voz alta, pendurando no ombro uma enorme mochila no formato de um morcego rosa. Depois catou o caderninho ao lado e a bandeja com o pedido recĂ©m-chegado, atravessando o pequeno corredor atĂ© onde Yue tinha sentado. ― Eita que meu filho anda se divertindo, nĂ©? 

Yue tocou o lado do pescoço para onde LĂłtus olhava, rindo. Estava ciente da marquinha estampada na pele, cujos tons de roxo começavam a esmaecer. O calor que tomou seu rosto pouco tinha a ver com vergonha. 

― VocĂȘ trabalha aqui. ― Yue encarou o crachĂĄ de LĂłtus, com o nome dele impresso logo abaixo de uma foto sorridente do rapaz, mas sabia disso de antes. 

Tinha sido uma das mil coisas nĂŁo solicitadas que LĂłtus havia contado desde que dera um jeito de conseguir o seu nĂșmero. Inicialmente, a primeira reação de Yue Ă quela pessoa enviando um “oiiii ✹” efusivo no telegram foi a ideia de bloqueĂĄ-la, pelo menos atĂ© reconhecer quem estava na foto. Aquele era o rapaz que encontrara na casa de TomĂĄs dias atrĂĄs, nĂŁo era? Seria mal-educado bloquear um amigo dele. Respondeu com um “oi” banal, mais do que o necessĂĄrio para que LĂłtus engrenasse uma conversa que, na maior parte do tempo, quase nĂŁo exigia a interação de Yue. 

― Tu tĂĄ com cara de quem nĂŁo dorme faz umas cinco vidas. 

JĂĄ acomodado Ă  mesa, LĂłtus pegou uma colherada generosa do pavĂȘ de cupuaçu, inclinando-se para oferecer a Yue. Ele negou com a cabeça, mas LĂłtus insistiu, batendo a colher de levinho em seus lĂĄbios atĂ© Yue ceder, abrindo a boca.

O pavĂȘ derreteu na lĂ­ngua, misturando ao ganache açucarado da cobertura o azedo violento do cupuaçu. A combinação harmonizava estranhamente com LĂłtus, embora Yue nĂŁo soubesse nada sobre ele. Bom
 Nada alĂ©m das listas de coisas com que fora bombardeado, o que nĂŁo dizia muito. Se Yue sabia se esconder debaixo de silĂȘncios acumulados, LĂłtus parecia ocultar a si mesmo atirando sobre as pessoas coisas sobre sua vida atĂ© deixĂĄ-las atordoadas demais para que se lembrassem de perguntar o que realmente importava. 

― TĂĄ tentando ser meu amigo? ― Yue acabou perguntando. Pegou a xĂ­cara de cafĂ© para mais um gole, abandonando-a quase em seguida, com uma careta. Estava gelado. Por quanto tempo tinha ficado distraĂ­do? 

― Ah, nĂŁo! ― LĂłtus se exasperou, cobrindo a boca com o dorso da mĂŁo, no meio de um riso divertido. ― Meu filho, quem que a gente precisa matar pra tu entender que a gente quer um beijo? Bom que jĂĄ aviso TomĂĄs. 

DifĂ­cil dizer o que deixou LĂłtus mais entretido: a forma como Yue coçou o nariz com o canto da mĂŁo numa tentativa de disfarçar o rosto corado, ou o fato de que ele chamou a xĂ­cara de cappuccino em seu socorro logo em seguida, sĂł para emendar uma nova careta. 

― Amo que tu tem uma carinha de que joga a gente na parede e chama de lagartixa, mas tambĂ©m Ă© um tapado. ― Ele enroscou o dedinho na alça da xĂ­cara para afastĂĄ-la de Yue antes que o sujeito decidisse se castigar com mais um gole de cafĂ© gelado. ― Tu quer outro? Peço pra ti. 

― NĂŁo. ― Esfregando as mĂŁos no rosto, Yue acabou rindo. Os olhos quase fechados formavam linhas simpĂĄticas nos cantinhos, que faziam LĂłtus pensar em delicadas teias de aranha. ― VocĂȘ Ă© muito direto. 

― Sou, nĂŁo sou? ― LĂłtus se interrompeu com um suspiro, fazendo uma pausa para aproveitar o gostinho do pavĂȘ. ― Que tu tĂĄ fazendo por esses lados? 

― Hoje foi dia de contação de histĂłrias no Santa Catarina ― Yue explicou, baixando as mĂŁos. 

― Que tu acha daquelas imagens nos muros deles, menino? ― LĂłtus fingiu estremecer, rindo. ― Eu olho toda vez porque sou bocĂł, mas fico sempre aperreado. 

O hospital Santa Catarina estava do outro lado da calçada ― um complexo hospitalar que chamava a atenção tanto por sua capela com belos vitrais quanto pelos vinte e quatro painĂ©is de bronze ao longo dos muros, retratando imagens anatĂŽmicas. Era tĂŁo bonito quanto perturbador. 

― Minha favorita Ă© da pessoa com a mĂĄscara de oxigĂȘnio ― Yue revelou, sem saber bem a razĂŁo, e acabou sorrindo sem jeito. 

― “Sensação de dor ausente”, coisa e tal, nĂ©? ― LĂłtus escancarou o sorriso diante da expressĂŁo curiosa de Yue. ― Minha memĂłria Ă© um espetĂĄculo, menino. Eu gosto da placa com a cobra. A que diz “que se cure no final do veneno quem se pĂŽs Ă  mercĂȘ do antigo mal”. 

― Parece uma maldição ― Yue ponderou. 

― NĂŁo, nĂŁo. ― LĂłtus pousou a colher sobre a bandeja, empolgado com o que interpretou como um duelo mental. ― É a antĂ­tese de uma maldição. Uma anti-maldição. TĂĄ ali escrito pra todo mundo ver que a cura pro veneno Ă© o prĂłprio veneno. Como no soro antiofĂ­dico. 

― O veneno nĂŁo saiu da equação, ainda assim. ― Yue apoiou a mĂŁo no rosto. Ainda era como ter areia nos olhos, mas eles estavam um pouco menos pesados. ― É sĂł uma constatação ― completou ao ver LĂłtus se preparar para rebater. Para LĂłtus, aquele era um assunto importante de verdade, percebeu. ― Uma anti-maldição ainda vem com o fardo do veneno. Ou de lidar com a criatura peçonhenta que o carrega. 

― Menino, nĂŁo tava querendo uma conversa profunda nĂŁo! ― LĂłtus se exasperou, batucando as unhas bem pintadas contra a bandeja. 

― Parece que estava ― Yue retrucou. Foi a vez de LĂłtus parecer embaraçado, embora nele a vergonha nĂŁo passasse de um breve esgar de lĂĄbios. Pareceu a Yue como um foliĂŁo que, pego de surpresa, vĂȘ sua mĂĄscara escorregar alguns centĂ­metros, revelando uma cicatriz que a farra deveria esconder. 

Dois adolescentes barulhentos se aproximaram para pegar a mesa ao lado. Pareciam irmĂŁos: loiros demais, brancos demais, quase feios. Usavam o uniforme de uma escola esnobe da regiĂŁo. O mais alto esbarrou contra a mesa dos dois, fazendo tudo balançar e derrubando o caderninho de LĂłtus no chĂŁo.  

― Foi mal, tias! ― Enquanto se abaixava para recuperar o caderno, Yue ouviu um dos garotos falar, seguindo-se da voz melodiosa de LĂłtus: 

― NĂŁo tenho o menor talento para ser tio de ninguĂ©m, gracinha ― ele respondeu, dando ĂȘnfase a cada palavra ―, mas tĂĄ desculpado, viu?

― Ih
 ― o outro baixou a voz, mas nĂŁo tanto que nĂŁo pudessem ser ouvidos ―, Ă© mina pagando de cara. 

― Lindo, olha aqui pra mim um instante. ― LĂłtus estalou os dedos, chamando a atenção dos garotos. ― TĂĄ vendo esse crachĂĄ aqui? Significa que eu tenho o poder de colocar as duas gracinhas pra fora desse prĂ©dio agora mesmo, sem toddynho, sem nada. É sĂł eu erguer a voz mais um pouquinho, querem testar?

De olhos arregalados, os garotos fizeram que nĂŁo, levantando-se para buscar uma mesa mais distante dos dois, bem o tipo de moleque que nĂŁo aguenta cinco segundos de confronto.  

― Yue, meu filho vai ficar pra sempre debaixo dessa mesa? 

O caderno tinha caĂ­do meio aberto, algumas folhas amassadas nas laterais com pancada. Yue nĂŁo era o tipo de abelhudo que espiava as coisas dos outros, mas teve a atenção fisgada por um desenho em pĂĄgina dupla. NĂŁo era nada de mais Ă  primeira vista, sĂł um redemoinho de cores variadas: vermelho, azul, roxo. Se alguĂ©m fotografasse o olho de um furacĂŁo, deveria ser semelhante Ă quilo. 

Quanto mais encarava o desenho, no entanto, mais Yue sentia o coração ser preenchido por uma percepção de perda inexorĂĄvel. As cores ganhavam novas texturas, arremessando-se contra sua retina de forma dolorosa. Se tivessem som, seria o de uma colmĂ©ia em polvorosa, o ruĂ­do de estĂĄtica aumentando furiosamente atĂ© apagar qualquer pensamento coerente. 

Ele ofegou, tentando levantar de sĂșbito. A cabeça bateu contra a mesa, fazendo o caderno escapar de suas mĂŁos e voltar a cair. Os garotos mais ao longe deram risadinhas. 

― Que foi? ― LĂłtus perguntou, olhando para baixo. 

Em outra pĂĄgina, rascunhos de mĂŁos pareciam empurrar alguma coisa ― alguĂ©m ― contra um lago. Nos cantos das pĂĄginas, longas serpentes pareciam concentradas em admirar a cena. 

Num gesto rĂĄpido, LĂłtus recuperou o caderno e o fechou com força. O sorriso nĂŁo tinha sumido do rosto, mas encrespava-se nos cantos em uma sugestĂŁo de antipatia. 

― NĂŁo te ensinaram a nĂŁo bulir nas coisas dos outros? 

― Desculpa
 ― Yue começou, vendo o rapaz jogar o caderno dentro da mochila, levantando-se em seguida. O resto de doce e a xĂ­cara de chocolate quente ficaram largados sobre a bandeja. 

LĂłtus foi rĂĄpido para abandonar a mesa, mas os elevadores do Sesc nĂŁo eram os melhores companheiros em uma fuga. Yue o encontrou atrĂĄs de um grupo de idosos que deveria ter escapado do pilates direto para uma boquinha na Comedoria. 

― Se queria me evitar era sĂł ir para a varanda ― Yue comentou, ajeitando a mochila no ombro. LĂłtus poderia socar aquele sorrisinho de canto, de quem estava se divertindo. ― Tenho medo de altura. 

Ele pigarreou, dividido entre achar graça de como LĂłtus tinha cruzado os braços e batia o pĂ©, impaciente, encarando o visor do elevador como se pudesse invocĂĄ-lo, e ficar preocupado de ter cruzado algum limite desconhecido. No meio disso, a memĂłria do primeiro desenho ainda rodopiava em sua cabeça, como uma galĂĄxia se espiralando. 

― Vi seus desenhos sem querer ― explicou, andando quando uma primeira leva de pessoas conseguiu entrar no elevador, deixando-os para trĂĄs, para uma prĂłxima tentativa. ― SĂŁo bonitos. 

― Claro que sĂŁo ― LĂłtus concedeu de mau gosto, espiando Yue por cima do ombro. 

Os desenhos eram uma coisa pessoal. O que ficara aberto Ă  vista de todos, ainda mais. LĂłtus gostava de andar para cima e para baixo com um sketchbook porque o fazia parecer misterioso, mas odiava que vissem seus desenhos. 

― Acho que sonhei com um deles ― Yue continuou. LĂłtus apertou os braços contra o peito, ignorando a onda gelada no estĂŽmago. ― Aquele de pĂĄgina dupla. O que parece um redemoinho. 

O som do elevador chegando ao andar os distraiu pelo tempo de serem arrastados pela massa de pessoas, empurrados para um cantinho no fundo. Yue virou de frente para LĂłtus, servindo de barreira entre ele e os outros, abrindo um espaço que quase poderia ser confortĂĄvel, em termos de elevador lotado. LĂłtus nĂŁo estava acostumado a muitas gentilezas. Aquilo foi doce. 

― É uma ilustração abstrata, vai parecer com qualquer coisa. ― LĂłtus revirou os olhos, puxando Yue para mais perto pela camisa. JĂĄ que estavam ali, nĂŁo custava tirar uma casquinha. 

Aquele sujeito tinha olhos sĂ©rios. Qualquer um ficaria intimidado, mas LĂłtus estava procurando outra coisa. A fagulha. Aquela promessa de tempestade que achou entrever quando o viu pela primeira vez, na casa de TomĂĄs. LĂłtus sempre foi como o vento incitando o fogo. Gostava de estimular as chamas, de transformar um foco controlado em um incĂȘndio. AtĂ© agora, sua melhor parceria tinha sido com TomĂĄs, mas
 

Pelo canto do olho, viu que estavam a trĂȘs andares do tĂ©rreo. Com um riso preso nos lĂĄbios, enroscou as mĂŁos na camisa de Yue, ficando na ponta dos pĂ©s para alcançar a boca dele. NĂŁo foi um beijo, mas uma mordida. LĂłtus prendeu o lĂĄbio inferior dele entre os dentes numa mordida que tirou de Yue um suspiro. 

― Por ter espiado minhas coisas sem eu deixar ― LĂłtus sussurrou, empurrando-o de levinho para longe na direção das portas abertas do elevador. 

A pressĂŁo dos dentes de LĂłtus em seus lĂĄbios deixou uma dorzinha residual que Yue nĂŁo soube definir se era boa ou ruim. Certamente era o tipo de impressĂŁo que perduraria, o que tambĂ©m combinava com o rapaz. 

― Vai pro metrĂŽ? ― Yue perguntou, caminhando ao lado dele. 

― Agora nĂŁo ― LĂłtus respondeu depois de checar as horas e decidir que era cedo demais para voltar pra casa. ― Vou descer atĂ© a Augusta e dar uma olhada nas lojinhas. 

Do lado de fora, foram recebidos por um vento constante e frio. LĂłtus se encolheu com um resmungo, resgatando de dentro da mochila uma parka igualmente cor de rosa, que logo tratou de vestir e apertar ao redor de si. 

― Tu nĂŁo sente frio nĂŁo? ― questionou, de olho em Yue, que caminhava naquela friaca sem uma jaquetinha sequer. 

― Raramente. 

Mas bem que deveria estar usando alguma coisa quente, Victor diria. Desde o começo da semana, Yue sentia uma dorzinha fina e constante nas articulaçÔes, um prenĂșncio de resfriado. Em algum momento da vida, sĂł começou a ignorar os sinais do corpo, tĂŁo constantes eram os momentos em que adoecia. 

― Viu
 ― LĂłtus começou. ― Eu tambĂ©m sonhei com aquilo lĂĄ, sabia? O desenho. É desde que me entendo por gente, isso. Os sonhos. Sonhos nada
 

― Mais pra um pesadelo ― Yue completou, vendo LĂłtus concordar com olhos sombrios. 

As cores, os sons, a desesperança. Pensando em retrospecto, Yue tambĂ©m sonhava com esses elementos hĂĄ bastante tempo, mas quando acordava tudo o que sobravam eram vestĂ­gios, nada que fosse palpĂĄvel. LĂłtus era um artista. Conseguiu capturar melhor o que para Yue nĂŁo passava de um mistĂ©rio. 

― A gente Ă© o quĂȘ entĂŁo, menino? Almas gĂȘmeas? ― LĂłtus brincou. 

― Na minha cultura, Yue Lao une as pessoas destinadas usando um fio de seda vermelha ― Yue se pegou comentando. 

― O Yue que eu conheço nĂŁo consegue nem falar que tĂĄ a fim do carinha que tĂĄ a fim. ― LĂłtus ria, mas havia um quĂȘ de interesse em sua expressĂŁo, na forma como seu corpo se voltava na direção dele. ― Isso aĂ­ Ă© tipo o akai ito dos japoneses? 

― Tipo isso. 

― E as pessoas destinadas tĂȘm pesadelos gĂȘmeos tambĂ©m ou vocĂȘ sĂł quis se exibir um pouquinho? ― A provocação fez Yue rir. LĂłtus bateu o ombro de levinho contra ele, sorrindo. 

― Me exibir um pouquinho tambĂ©m ― Yue admitiu ―, mas lembrei que Yue Lao vive no lado escuro da lua, perto do submundo. Observando os humanos. Decidindo quais casais vĂŁo se formar, quais nĂŁo. O pesadelo te faz pensar nisso? 

NĂŁo em casais e romance, mas em uma verdade obscura, em decisĂ”es tomadas contra a vontade alheia. Em deuses rigorosos. 

InevitĂĄvel

Yue tornou a pensar sobre aquilo. 

― Olha, se algum deus estiver querendo me mandar algum recado ― LĂłtus virou-se para andar de frente para Yue, sorrindo quando ele o tocou de leve na cintura para evitar que tropeçasse ou esbarrasse em alguĂ©m ―, vai precisar ser um pouco mais direto. 

Com um giro, LĂłtus os levou para o canto da calçada, envolvendo o pescoço de Yue com os antebraços. Gostava de como ele era mais alto, e do cheiro suave de sua pele sob uma leve camada de suor. De perto, Yue tinha olheiras visĂ­veis e uma expressĂŁo cansada. A gola da camisa estava um pouco esgarçada e o cabelo, meio grudado atrĂĄs das orelhas, sugeria um dia cheio. Os olhos continuavam afiados, contudo. 

LĂłtus sabia pouquinho sobre aquele cara, mas jĂĄ poderia afirmar que sua coisa favorita sobre Yue era o quanto ele era humano

― Me beija? ― pediu, manhoso, passando as unhas no pescoço de Yue. 

― O TomĂĄs
 ― ele começou, confuso. 

E nem entendia muito bem a prĂłpria confusĂŁo, agora. Ao longo da semana, escreveu e apagou uma mensagem para ele vĂĄrias vezes. Sempre que pensava em enviar, achava que as palavras estavam erradas, ou simplesmente era atropelado pela rotina. Vi tinha sido claro sobre poderem ficar juntos, e Yue gostava da ideia. Gostava demais. Isso nĂŁo tornava mais fĂĄcil dar o primeiro passo. 

E agora estava ali, travado novamente, encarando um LĂłtus risonho. O TomĂĄs
 Ele e LĂłtus tambĂ©m tinham alguma coisa, certo? E todo mundo parecia confortĂĄvel com aquilo, sĂł esperando que Yue desse mais um passo e se juntasse ao cĂ­rculo. NinguĂ©m o esperaria pra sempre. 

― Me beija, abestado ― LĂłtus exigiu entre risadas. ― Eu faço o TomĂĄs te desculpar por me beijar antes dele. 

Meio rindo, Yue encaixou a mĂŁo na nuca de LĂłtus, trazendo-o para perto. Havia um conforto na presença de LĂłtus que era diferente: ele nĂŁo era o cara por quem estava apaixonado desde a adolescĂȘncia, tampouco o carinha que havia parecido inalcançåvel por meses. Era só
 Um rolo normal. AlguĂ©m que queria um beijo seu e pedia por isso. AlguĂ©m que o deixava confortĂĄvel. 

LĂłtus roçou os lĂĄbios contra os dele, ameaçando-o com uma nova mordida. Yue se afastou, sorrindo de ladinho, desviando quando LĂłtus tentou buscar sua boca novamente. 

― Sem morder ― sussurrou, correndo os dedos pela nuca de LĂłtus. ― Bonzinho. 

O pedido pareceu girar alguma chavinha dentro do rapaz. LĂłtus se encostou em seu peito, mais molinho, fazendo que sim com a cabeça. Aceitou com um suspiro o toque gentil da boca de Yue e o outro, mais malcriado, quando a lĂ­ngua dele procurou pela sua. Sequer reclamou quando Yue girou os dois, pressionando seu corpo contra o muro do prĂ©dio. 

O cheiro de gengibre do perfume de LĂłtus queimou as narinas de Yue, lembrando-o do inverno em Yunnan. LĂłtus nĂŁo se parecia nadinha com algo nascido durante o inverno, no entanto. Era uma criatura solar, cuja presença se expandia feito as raĂ­zes de uma planta invasora. Ele suspirava durante o beijo, agarrando-se Ă  nuca de Yue como um nĂĄufrago, impedindo-o de se afastar. Por sorte, seu beijo era gostoso o bastante para que a ideia sequer passasse pela cabeça de Yue. 

Os termĂŽmetros na avenida indicavam que estavam chegando aos dez graus. Os dois nĂŁo tinham ideia disso, unidos em uma bolha de calor com cheiro de gengibre e cappuccino. 

― NĂŁo
 ― LĂłtus resmungou, tentando puxĂĄ-lo para perto novamente. Yue tinha quebrado o contato depois de um tempo que parecia infinito, mas nĂŁo o suficiente. ― Larga o celular
 

― Pode ser meu pai ― Yue explicou baixinho, calando as reclamaçÔes com um beijo suave. ― Espera. 

Sempre olhava as notificaçÔes assim que o celular vibrava, mesmo que as chances de a tia enviar uma mensagem fossem pequenas. Em caso de problemas, ela ligaria, mas Yue preferia pecar pelo excesso de zelo. 

― O que Ă©? ― LĂłtus tentou espiar a tela, curioso, ao ver Yue explodir em uma risada. 

Ele ergueu o celular, mostrando a selfie que TomĂĄs tinha mandado, e a legenda logo embaixo. Depois de revirar os olhos para aquele galalau de omegaverso com quem TomĂĄs insistia em sair, LĂłtus acabou rindo tambĂ©m. 

― Responde ele ― disse, trazendo Yue de volta para perto. LĂłtus riu com o rosnadinho de Yue ao ganhar uma mordida breve no pescoço. ― Vai, resolve isso. 

Assentindo, Yue começou a digitar uma mensagem. E desistiu no meio, voltando a guardar o celular. 

― Ah, nĂŁo! ― LĂłtus protestou. ― O que foi agora, meu deus? 

― Tive uma ideia melhor. Mas preciso ir pra casa. Tudo bem? 

Fazendo bico, LĂłtus concordou, nĂŁo sem antes erguer o dedo para pedir sĂł mais um beijo. 

― Tu nĂŁo vai ficar me enrolando assim, nĂ©? ― questionou, a boca pressionada na de Yue. ― Vai me chamar sair, e logo. 

Yue lembrou de si mesmo poucos dias atrĂĄs, falando alguma coisa parecida para Vi. Ele riu, prometendo num sussurro que nĂŁo, nĂŁo enrolaria, pouco antes de mergulhar em mais um beijo. 

━━━━━━ ‱ ✿ ‱ ━━━━━━

O balanço do metrĂŽ trouxe de volta o sono acumulado de Yue. Tinha uma cartela de Zolpidem intacta na gaveta. O remĂ©dio funcionava, e bem. Era por isso que evitava usĂĄ-lo. Yue apagava sempre que se medicava, e nunca poderia ter certeza de que a madrugada seria tranquila, sem nenhuma emergĂȘncia do pai. JĂĄ tinha passado por duas situaçÔes desconfortĂĄveis assim, de modo que preferia sofrer com as crises de insĂŽnia a resolver com medicação. 

Mas se tudo parecesse certo em casa, quando chegasse, iria do banho direto para o sono pegajoso dos hipnĂłticos. 

“Vou me dopar pra dormir”, avisou ao Vi por mensagem. “A tia pode te ligar se der merda?”

“Pode!”, Victor respondeu em minutos. “Quer que eu vá dormir aí?”

“Se vocĂȘ vier, eu nĂŁo durmo.”

“Quem Ă© vocĂȘ, seu ET safado, e pra onde levou meu Yue?”

Yue riu. Gostava de meu usado naquele contexto e gostava de Vi evitando comentar sobre a selfie, aguardando seu sinal. Na mĂŁo, carregava a sacolinha de uma padaria simpĂĄtica onde LĂłtus o levou depois que Yue contou sua ideia. 

NĂŁo passava das nove, mas ele quase reconsiderou seu plano depois de tocar a campainha da sobreloja. Na luz mortiça da rua, a placa da Pedacinho de CĂ©u mais parecia um aviso triste. 

Foi TomĂĄs quem apareceu, depois de Annchi espiar pela janela e avisĂĄ-lo que “o seu amigo caladĂŁo tĂĄ lĂĄ embaixo com cara de filhote”. 

― Oi
 ― Yue esboçou um sorriso. ― Desculpa o horĂĄrio. E aparecer sem avisar. É rĂĄpido. 

Apertando as laterais da porta, TomĂĄs procurou por uma resposta que nĂŁo veio antes de Yue oferecer a sacolinha em sua direção. 

― O que Ă©? ― acabou perguntando, dando um passo para a rua. 

O cheiro doce o atingiu primeiro. Abrindo a sacola, TomĂĄs encontrou uma caixinha e, dentro dela, vĂĄrios pĂŁezinhos açucarados, pequenos e redondos, cobertos por uma camada de mel e amĂȘndoas. 

― Eu adoro esses! ― TomĂĄs riu, buscando os olhos de Yue. ― Como sabia? 

― Pareceu certo
 ― Yue ergueu os ombros. Achava que LĂłtus nĂŁo tinha escolhido aquela padaria por acaso, mas a escolha dos pĂŁezinhos foi sua. LĂłtus nĂŁo tinha discordado. ― Gostei da foto ― completou. 

Apertando a sacola contra o peito, TomĂĄs esperou pelo resto. Queria esconder a ansiedade, mas nĂŁo achou que conseguiria. JĂĄ tinha dado mais um passo na direção de Yue, surpreendendo-se quando ele o tocou nos cabelos, deslizando um carinho ao redor de sua orelha. 

― Agora tĂŽ no limite da insĂŽnia, mas quero conversar com calma. Depois. VocĂȘ quer?

― Sim
 ― TomĂĄs concedeu. ― Quando? 

― Na prĂłxima semana rola o Indiepira. Conhece? 

TomĂĄs fez que sim, segurando o riso ao ver a surpresa nos olhos de Yue por ele conhecer algo do tipo. Nos dois Ășltimos anos, o Indiepira tinha virado uma das tradiçÔes de SĂŁo Paulo, misturando as melhores coisas que aquela Ă©poca do ano poderia oferecer: mĂșsica caipira, bebidas quentes e comida de festa junina. Naquele festival de rua, tudo aquilo vinha misturado com a mĂșsica alternativa de bandas indie da cidade. Ele e LĂłtus jĂĄ estavam se preparando para ir, de qualquer jeito. 

― Devo encontrar com o Vi mais pra noite, mas queria te ver antes. SĂł nĂłs dois. E aĂ­, mais tarde ― ele sorriu, tĂŁo honesto e aberto, que TomĂĄs acabou por acompanhĂĄ-lo ―, nĂłs trĂȘs? 

― NĂłs quatro? ― TomĂĄs sugeriu, aos risos. ― LĂłtus deve ir tambĂ©m. Tudo bem? 

― NĂłs quatro ― Yue concordou. ― Se eu desmarcar, me expĂ”e como tĂłxico no Instagram. 

― Eu vou mesmo. ― Matando a distĂąncia entre os dois, TomĂĄs o beijou no rosto. Convenceria Yue a subir e ficar com ele pelo resto da noite se nĂŁo fosse tĂŁo Ăłbvio o quanto o rapaz parecia exausto. ― Obrigado pelos pĂŁes. 

Depois que ele se afastou, TomĂĄs voltou para perto da porta, mas sĂł entrou depois que a silhueta de Yue sumiu na esquina. Seu celular vibrou na mesma hora, com uma mensagem de LĂłtus: 

“Beijei seu boyzinho antes de vocĂȘ, mas levei ele pra te comprar doce na sua padaria favorita, tĂĄ? 🌾”

Continua


No próximo capítulo
 Kuí tem jeitos peculiares de flertar. Alguns deles envolvem morte mais do que deveriam. Prontos pra conhecer alguns personagens novos? Porque Yan precisa dar um pulinho em casa para visitar a família.

O CapĂ­tulo 20 — Uma canção sobre vida e morte chega no dia 16 de fevereiro Ă s 12h! 

Ei, vizinho! NĂŁo esquece de me acompanhar nas outras redes! đŸ’«

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