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đŸ’« Pontes Imortais ― Capítulo 12

Ameaças e traidores

Boa sexta diretamente aos habitantes do VĂłrtex e visitantes! O capĂ­tulo de hoje estĂĄ tenso e temos o retorno DELAS, as Pontes IMORAIS. Pois Ă©, foi e voltou rĂĄpido feito bumerangue! Espero que gostem. Tem bastante coisa rolando no capĂ­tulo de hoje!

No capĂ­tulo anterior
 Vi e TomĂĄs tiveram seu primeiro momento đŸ”„ na histĂłria depois da rinha de luta. Em Farkas, fomos deixados na noite do ataque de um Fronteiriço, quando Yan descobriu que Li’a Ă© seu querido noivo perdido Maali. O que trouxe ela e KuĂ­ a Farkas? E o que estĂĄ acontecendo nos aposentos do clĂŁ principal? Tudo isso, vocĂȘ descobre agora.

A trilha-sonora de hoje Ă© Fire on fire, de Sam Smith! JĂĄ estĂĄ na playlist junto com as outras!

ATENÇÃO! Este capĂ­tulo contĂ©m cenas de conteĂșdo sexual explĂ­cito e nĂŁo Ă© recomendada para menores de idade. 🔞

Capítulo 12 — Ameaças e traidores

Farkas, Pré-Hecatombe

Havia um lago, no lugar onde KuĂ­ nascera, que ficava no fundo de uma caverna. Um Ășnico tĂșnel conduzia atĂ© lĂĄ, longo e cilĂ­ndrico. Era titĂąnico a ponto de um exĂ©rcito de bom tamanho ser capaz de atravessĂĄ-lo se quisesse. Na primeira vez que o visitou, ainda um filhote, KuĂ­ dissera Ă  MĂŁe que parecia ter sido escavado por uma serpente gigantesca. Ou
, MĂŁe retrucara, nĂłs estamos dentro da barriga de uma. A ideia tirara seu sono por dias, mas nĂŁo tanto quanto as coisas que pĂŽde ver dentro do lago. 

Estrelas, MĂŁe ensinara. Coisas que ficam nos cĂ©us de alguns mundos, grandes bolas de fogo queimando atĂ© se extinguirem. AtĂ© depois de mortas, continuam brilhando. É uma decadĂȘncia bonita de assistir. 

Ao atravessar a cortina diĂĄfana que conduzia Ă  ala de convivĂȘncia da tenda, KuĂ­ pensou em Li’a como uma estrela. 

Os olhos de KuĂ­ nĂŁo enxergavam a dimensĂŁo dos vivos, mas o outro lado. Era uma experiĂȘncia divertida aquela: ter um corpo tĂŁo concreto, quente, mas estar atracado a uma esfera espectral. Li’a era um incĂȘndio. Expandia-se por todos os lados, linguetas de fogo destacando-se para desaparecer nos recantos do nada. No começo, ela queimava muito mais. A animosidade que alimentava aquelas chamas nĂŁo havia diminuĂ­do com o tempo, mas sim a prĂłpria Li’a. 

Todos os atos daquela morte deixavam KuĂ­ arrebatado. 

― Quanta gente acordada a essa hora. Estavam esperando por mim? 

― KuĂ­, a Tapisa fez questĂŁo de aguardĂĄ-lo, mesmo que eu tenha dito que poderĂ­amos resolver a questĂŁo sozinhos. Sequer Ă© um problema. 

Ovide se adiantou, levantando-se de onde estivera, ao lado de Li’a. KuĂ­ desconfiava de que ela nĂŁo se mexera desde que tinham saĂ­do, o chĂĄ intocado sobre a mesa. 

― Ah, vai catar coquinho! ― Tapisa encrespou, olhando torto para Ovide. ― Eu nem sabia em que buraco te achar hoje mais cedo, quando a madame desmaiou. Prefiro confiar no malu
 ― Ela pigarreou, espiando Kuí de rabo de olho. ― No parecer do Senhor Instrutor

― VocĂȘ Ă© um bichinho mais inteligente do que parece ― KuĂ­ concedeu, dando tapinhas condescendentes na cabeça de Tapisa, os olhos se voltando para Ovide. 

Aquele era um tipo esquisito, cuja pele branca queimava facilmente ao sol, enchendo-se de grandes placas vermelhas. A cabeleira abundante e loira dava a Ovide a aparĂȘncia de um leĂŁo desnutrido, muito embora nĂŁo passasse de um macaquinho. Confiança nĂŁo era algo que KuĂ­ desperdiçasse com Ovide, mas se Li’a tinha lĂĄbios feitos para sussurrar acordos e mentiras, os ouvidos daquele ali eram ideais para achar segredos. KuĂ­ preferia tĂȘ-lo sob os olhos, de modo que pudesse controlĂĄ-lo. Fazia parte do teatro fingir que Ovide era tĂŁo importante quanto ele prĂłprio e sua Sereia. 

― Conseguiu arrancar alguma palavra da madame, Ovide? ― KuĂ­ questionou, sorrindo diante do aceno negativo do homem. ― Muito bem, vĂŁo para os seus aposentos. Eu cuido de Li’a a partir de agora. 

Ovide se despediu com uma reverĂȘncia diligente, afastando-se em seguida. Tinha pressa para voltar para a prĂłpria cama. Tapisa, ao contrĂĄrio, parecia relutante em abandonar seu posto. 

― Te ouvi falar que confiava no meu parecer, querida. ― Kuí enrolou a ponta de um dos cachos no dedo, o queixo indicando a direção dos dormitórios.

― NĂŁo Ă© prudente chamar aquele curandeiro de volta? ― A jovem nĂŁo saiu do lugar. Era insensata com as palavras e leal feito um vira-lata, qualidades que KuĂ­ conseguia admirar. ― Eu avisei que era burrice dispensar o mĂ©dico da trupe na Ășltima parada. 

― Minha memĂłria me trai ou era vocĂȘ a criaturinha cantarolando de satisfação com todas as tortas que fez das vĂ­sceras daquele estrupĂ­cio? ― Ele soltou uma risada de puro ĂȘxtase com a lembrança. ― Vamos arranjar um doutor novo para carregar de um lado para o outro, um saboroso, para te servir de petisco caso pense em nos trair, como o anterior. AtĂ© lĂĄ, eu cuido da sua madame. VĂĄ deitar. 

KuĂ­ captou o movimento de Li’a tĂŁo logo Tapisa saiu, segurando-a pelo pulso antes que o tapa encontrasse o alvo. 

― Mentiroso! ― ela sibilou, arreganhando os dentes em fĂșria. ― Embusteiro dissimulado! 

― SĂŁo todos sinĂŽnimos, docinho ― KuĂ­ cantarolou, fazendo pressĂŁo no pulso de Li’a. ― O seu vocabulĂĄrio Ă© admirĂĄvel ainda assim. 

Era cerca de um palmo mais baixo que ela e certamente nĂŁo seria mais forte se aquela raposa ainda vivesse nos dias bons de sua juventude, mas Li’a era pouca coisa alĂ©m de uma fogueira minguando ― o calor se transmutando em febre. A pele dela queimava

― VocĂȘ nĂŁo me contou que ele estava vivo ― Li’a puxou o braço de volta, afastando-se. 

Parecia Ă s vĂ©speras de quebrar toda a porcelana delicada sobre a mesa, o que seria uma pena. Porcelana aruviana de qualidade era difĂ­cil de encontrar, peças exclusivas de colecionadores.  

― NĂŁo vamos ter essa conversa aqui, docinho. 

― Eu nĂŁo vou a lugar nenhum! ― Li’a explodiu, fazendo as esferas de luz que flutuavam sobre os dois estremecerem perigosamente, Ă s vĂ©speras de explodir. Mesmo a estrutura da tenda pareceu bambear. 

― Matar toda a trupe seria imprudente. ― KuĂ­ tocou o lĂĄbio inferior com o dedo. O sorriso insidioso parecia dizer o contrĂĄrio, como se a estimulasse a tentar. 

― E te matar seria o quĂȘ? ― Li’a cortou a distĂąncia que havia aberto entre os dois, encurralando KuĂ­ no canto. Os olhos cor de geada faziam promessas doloridas. ― Poderia te pedir para morder a prĂłpria lĂ­ngua agora atĂ© arrancĂĄ-la fora. VocĂȘ a entregaria de bom grado para mim se eu usasse as palavras certas. 

― Ah, Sereia, e vocĂȘ a usaria como um pingente de recordação? ― Ele estava de cabeça erguida para enxergar melhor o espetĂĄculo daquele incĂȘndio. ― Vamos, experimente. Sei que gosta quando eu me machuco sob o seu comando. 

A risada de KuĂ­ encheu o ar assim que Li’a o segurou pelo pescoço, as garras de vidro anunciando uma promessa de sangue. Tinha certeza de que ela o machucaria, de uma forma ou de outra: se nĂŁo fosse com as palavras, seria com a febre, que jĂĄ fazia a pele de KuĂ­ começar a ferver. 

― Te contei tudo
 ― A voz dela nĂŁo estava mais mansa, mas mais baixa. Poucos se aventurariam atĂ© o espaço comunal Ă quela hora e palavra alguma escaparia para alĂ©m daquele cĂŽmodo. Li’a nĂŁo tinha medo de ser ouvida, apenas se sentia mais confortĂĄvel com rumorejos. ― Quem era Yan, que aparĂȘncia tinha. Te falei sobre Shu. VocĂȘ sabia sobre todo o meu pavor com a ideia de que ele estivesse morto. Pior que isso, que fosse um escravo em terras farkasianas
 

Havia mais a ser dito, mas Li’a perdeu o fĂŽlego. Ensaiava os discursos para que as palavras nunca a abandonassem quando fossem necessĂĄrias, para que a força delas nunca a assustasse. No conforto da tenda, contudo, quando despia parte da armadura e se envolvia em confortĂĄveis camadas de silĂȘncio, era mais difĂ­cil achar o caminho entre elas. 

― Ah, docinho
 NĂŁo disse para que vocĂȘ nĂŁo ficasse distraĂ­da como estĂĄ agora. 

Dedos gentis resvalaram contra a dorso da mĂŁo dela. A diversĂŁo nĂŁo havia abandonado KuĂ­, infiltrando-se nas rugas de seus olhos enquanto ele sorria, como uma espĂ©cie de brilho. Enroscadas aos braços dele, as cobras nĂŁo pareciam ler Li’a como uma ameaça, embora a maior delas se adiantasse em sua direção, parecendo inclinada a envolvĂȘ-la pela cintura. 

― Eu vi o jeito como vocĂȘ olhava para ele
 ― ela rosnou. 

KuĂ­ respondeu primeiro com um suspiro. As unhas de Li’a entravam em sua pele, manchando as pontas de vermelho. O som mexeu com ela. Li’a se aproximou o bastante para que a cobra conseguisse finalmente se enrolar ao seu redor, apertando suavemente. 

― Ele era um de seus noivos, nĂŁo era? ― KuĂ­ abrandou a voz em uma concessĂŁo fingida. A provocação na postura continuava igual. ― O que nĂŁo era um traidor. Quem sabe nĂŁo pode ser nosso quando acabarmos? VocĂȘ nunca foi ciumenta
 

A memĂłria avivou as chamas da raiva em Li’a. Haviam sido os trĂȘs no passado: Oz, Yan e ela. Ravi insistia em um casamento tradicional, apenas ela e Oz, e Li’a nunca se casaria se nĂŁo fossem os trĂȘs. Estava disposta a brigar com aquele velho ranzinza por isso. 

Prometera a Oz
 

― Se Yan vive em paz entre os Farkas atĂ© hoje, a Ășnica conclusĂŁo a que posso chegar Ă© que ele concorda com tudo que fizeram com Nivaria. Comigo. 

SĂł percebeu as lĂĄgrimas porque KuĂ­ as coletou entre os dedos, levando-as aos prĂłprios lĂĄbios. 

― É um nivariano ― ele argumentou, vendo-a concordar com um aceno frustrado. Ela se orgulhava daquela percepção sobre si mesma: nunca ignoraria um nivariano, mesmo um que lhe tivesse traĂ­do. ― Fique longe dele atĂ© terminarmos. Ele te distrai. 

Quando Li’a afrouxou a mão em volta de seu pescoço, Kuí trouxe os dedos dela para perto, lambendo uma a uma as unhas manchadas de sangue.

― Foi vocĂȘ? ― ela questionou. O tremor na voz tinha bem menos a ver com raiva agora. A cobra apertava-se com mais força em volta de seu corpo, cobrindo-a de arrepios. ― O Fronteiriço?

Ensinara KuĂ­ como atrair Fronteiriços do vĂłrtex: era uma prĂĄtica comum entre jovens caçadores nivarianos, para que exercitassem suas habilidades de combate. 

― Apenas um golpe de sorte. ― KuĂ­ torceu os lĂĄbios, decepcionado. ― Eu adoraria que tivĂ©ssemos pensado nisso em vez de deixar nas mĂŁos do acaso. 

KuĂ­ emitiu um grito agudo logo em seguida. Li’a o havia lançado contra o mar de almofadas espalhadas pelo cĂŽmodo, subindo sobre ele. A menor das cobras erguia a cabeça, alarmada, ao passo que a outra demonstrava sua indignação tentando roubar o fĂŽlego de Li’a. 

― NĂŁo minta para mim ― ela exigiu. Seus olhos eram como o fundo do vĂłrtex. 

― Eu preciso de vocĂȘ ― KuĂ­ retrucou, como se aquela resposta bastasse, ajeitando-se sob o corpo dela. 

Os cabelos de Li’a se rebelavam em uma desordem enfurecida e suas mĂŁos tinham voltado para o pescoço dele. As orelhas de raposa tambĂ©m estavam ali agora, assim como a longa cauda branca. 

O quadril de Li’a ondulou sobre o dele. Dessa vez, KuĂ­ nĂŁo a impediu quando ela o acertou com um tapa barulhento no rosto. Mesmo aquela agitação nĂŁo parecia atiçar as cobras a ponto de atacar. Era uma cena com que jĂĄ tinham se acostumado. 

― NĂŁo minta para mim porque ninguĂ©m vai me machucar de novo. ― A forma como Li’a disse aquilo foi diferente. Sua voz traiçoeira projetava-se para dentro, como se a raposa falasse na cabeça de KuĂ­. ― Acabo contigo antes que possa fazer algo assim ― prometeu, emendando um gemido profundo. 

Kuí encaixara uma coxa entre as pernas dela, fazendo força para cima.

― Saber disso te deixa molhada demais. 

Não era uma pergunta. Conseguia sentir. Experimentara aquele ódio na ponta dos dedos em muitas noites. Tocou-lhe as mãos, estimulando Li’a a feri-lo mais, como se não se importasse.

Ela era fogo puro, um brilho difĂ­cil de encarar por muito tempo. Ainda assim, ele sustentou o olhar, rindo alto. 

Li’a nĂŁo duraria muito. Em parte, a culpa era dele, que a exauria, forçando-a atĂ© que estivesse no limite da dor e da raiva. Quase podia ver o espĂ­rito dela escapando pelas frestas de machucados que nunca cicatrizaram completamente. 

Às vezes, KuĂ­ queria gastĂĄ-la depressa para que Li'a morresse logo e ele nĂŁo precisasse lidar com a dor de vĂȘ-la abandonĂĄ-lo. Noutras, sĂł queria guardĂĄ-la como um tesouro. Em mais de uma ocasiĂŁo, cogitou descascĂĄ-la daquele corpo mortiço e guardar a alma dela em destaque na sua coleção. 

― Eu tive medo ― Li’a confessou em um sussurro, chamando de volta a atenção de KuĂ­. ― Quando o Fronteiriço apareceu, tive medo de estar na rua. Aqui ninguĂ©m sabe como enfrentĂĄ-los, estavam atarantados como cordeirinhos. 

As mĂŁos dela procuraram o rosto de KuĂ­, contornando-lhe as bochechas cheias, os lĂĄbios rosados. 

― NĂŁo gosto de ficar longe de vocĂȘ em Farkas. 

― Precisa de mais coragem, entĂŁo, se quer seguir com o nosso plano. ― KuĂ­ espantou as cobras com um gesto, aproveitando para desamarrar a fita que prendia a tĂșnica de Li’a. 

Sob a luz amarela dos lampiĂ”es, encarou o corpo seminu dela. A tĂșnica cobria-lhe os seios, mas seguia a curva suave que formavam. Li’a tinha o corpo marcado por escarificaçÔes: talismĂŁs de proteção nivarianos usados pelos caçadores para evitar os ataques destrutivos dos Fronteiriços. KuĂ­ imaginava que era o tipo de conhecimento que Farkas nĂŁo se interessou em roubar, achando que o sucesso de Nivaria devia-se apenas Ă  sua tecnologia avançada. 

― Vai deixar o cachorrinho filhote te tocar? ― KuĂ­ provocou, beliscando um dos mamilos dela. Ver Li’a rosnar sĂł o fez apertar mais forte, atĂ© que ela o forçasse a afastar a mĂŁo, prendendo-a contra uma das almofadas. 

― SĂł o suficiente para dar cabo dele. ― Li’a se inclinou em sua direção, oferecendo um dos seios para que KuĂ­ chupasse devagar, mordiscando assim que sentiu o mamilo duro o bastante. ― Eu deveria retribuir o favor e matar o desgraçado pelas costas. 

A ideia pareceu divertir KuĂ­, sua risada de porquinho arrancando de Li’a algo prĂłximo de um sorriso. 

― Devo tirar sua roupa tambĂ©m? ― ela questionou, fazendo a tĂșnica escorregar pelos ombros. 

Pouco importava estarem em um ambiente comum. Aquela nĂŁo seria a primeira vez que a trupe os veria transando. Se algum membro insone tivesse mĂŁos habilidosas, atĂ© poderia ser convidado a se juntar aos dois ― o que era visto como uma honra. 

― Não hoje, docinho. Quero só te assistir.

KuĂ­ caminhou o olhar pelo corpo dela. A fragilidade nĂŁo escondia os vestĂ­gios do caçador forte de antes. Nivarianos nĂŁo compreendiam gĂȘnero, de forma que se sentiam Ă  vontade para fluir entre inĂșmeras possibilidades. Quando conheceu Maali, anos atrĂĄs, ele se alinhava ao masculino. Li’a era uma versĂŁo muito menos Ă­ntegra e doce. A queda entretia KuĂ­ tanto quanto o incĂȘndio. 

― A conversa com os lĂ­deres do vilarejo hoje foi interessante ― Li’a sussurrou, abrindo as pernas. 

Expunha-se sem pudores para KuĂ­, os dedos circulando o clitĂłris. Ele estava certo: a ideia de destruir a excitava. Ondulava o quadril, roçando-se contra os dedos, que arrancavam dela gemidos aveludados. KuĂ­ a apertava na cintura, a coxa ainda pressionada entre suas pernas para que ela se esfregasse mais. 

― Eles tĂȘm medo de falar diretamente
 ― prosseguiu, fechando os olhos ―, mas a polĂ­tica de força de Ravi os intimida e assusta. 

― Aposto que alguns sussurros aqui e ali criariam um monte de insurgentes ― KuĂ­ disse aos risos. 

Puxou o corpo dela para perto, voltando a se entreter com os seios de Li’a. Eram pequenos a ponto de sumir sob as muitas camadas de roupa, mas tĂŁo deliciosos que KuĂ­ nĂŁo se importava em perder longas horas entre eles nos dias em que o calor do desejo atravessava seu corpo. Sua boca sempre fazia Li’a gemer alto, pedindo em cochichos por mais. 

― A minha Sereia vai plantar boas histĂłrias nos ouvidos certos, nĂŁo vai? 

A voz dele, abafada contra sua pele, era um dos sons preferidos de Li’a. Com trĂȘs dedos apertados contra o clitĂłris, aumentou o ritmo dos toques, deixando um rastro molhado contra o tecido da roupa de KuĂ­. O atrito era enlouquecedor. 

― A sua Sereia jĂĄ começou
 ― ela respondeu, fazendo com que uma das mĂŁos dele soltasse sua cintura. ― Olha pra mim ― exigiu, acariciando o rosto de KuĂ­. ― Quero gozar com os seus dedos. Mete. 

KuĂ­ era uma criatura velha, capaz de resistir ao comando dela. Mas nĂŁo queria. O timbre vulpino de Li’a revestia-se de um conforto que experimentara poucas vezes. E ela o impulsionava a fazer algo que jĂĄ queria: deslizar dois dedos para dentro de sua boceta molhada atĂ© que Li’a gemesse alto, o corpo ligeiramente arqueado. 

A magia na voz de Li’a funcionava mais facilmente com desejos que jĂĄ existiam sob uma camada de pudor; mas com algum esforço, conseguiriam convencer um filho dedicado a sufocar a prĂłpria mĂŁe debaixo de um travesseiro. KuĂ­ lia suas almas, Li’a incitava suas paixĂ”es. 

― Quantos sussurros vocĂȘ plantou ao redor, docinho? 

KuĂ­ mal conseguia falar, consumido pelo tesĂŁo. Li’a cavalgava em seus dedos, as mĂŁos apoiadas em seu peito, apertando-lhe o tecido da roupa. Demandava a atenção dele com os olhos, com o corpo, com os suspiros manhosos. Ele conseguia sentir o quanto jĂĄ havia molhado as prĂłprias coxas sĂł por assisti-la ali. Talvez pedisse a Li’a que o chupasse depois. No futuro, poderiam ter aquele doce curandeiro entre os dois. 

Quase gozou com as possibilidades. 

― O suficiente para que Farkas imploda com todos eles muito em breve ― Li’a disse, apertando as coxas contra a mĂŁo de KuĂ­. ― Mais, KuĂ­. Eu preciso de mais
 

Suor escorria-lhe entre os seios, como uma carĂ­cia. Li’a se impulsionou para frente, apoiando a testa contra a de KuĂ­. Apoiada nas mĂŁos, um joelho de cada lado do corpo dele, estava praticamente de quatro, com o quadril erguido. Foi fĂĄcil para KuĂ­ deslizar mais um dedo para dentro dela, o polegar pressionando-lhe o clitĂłris atĂ© arrancar um suspiro de deleite. 

― É tĂŁo gostoso
 ― Li’a apertava as almofadas, o rosto afundado no pescoço de KuĂ­, o peito apoiado contra o dele. 

Estavam tremendo, e essa era a parte favorita de KuĂ­. Apertando uma coxa contra a outra, sentia-se Ă s vĂ©speras de um orgasmo. 

― A minha Sereia vai destruir essa cidade inteira
 ― ele disse, segurando os cabelos suados dela com a mĂŁo livre. Li’a parecia mais febril do que antes. No dia seguinte, precisava lembrar-se de arranjar algum remĂ©dio para ela. 

A resposta nĂŁo veio com palavras. Em vez disso, Li’a sentou-se de uma vez nos dedos dele, apertando-lhe o pescoço novamente, roubando o ar de KuĂ­. Ele gozou antes mesmo de perceber que sua vista começava a embaçar, os pulmĂ”es gritando. Com uma mĂŁo sobre as dela, deixou o aviso claro: Li’a nĂŁo deveria parar ainda. Queria mais. O desespero do prĂłprio corpo o excitava. 

Seu limite chegou com o orgasmo dela. Sob os gemidos de Li’a estava o som dos ofegos de KuĂ­ em busca de ar, o corpo cobrindo-se de arrepios. RefĂ©m do prĂłprio tesĂŁo, ele ainda a enxergava como uma silhueta turva ― e percebeu, alarmado, que a fogueira de sĂșbito se tornara mais mortiça. 

― NĂŁo vai sobrar nada de Farkas quando eu terminar
 ― Li’a prometeu, encaixando-se nos braços dele com um suspiro doce. 

KuĂ­ afundou os dedos nos cabelos dela, distribuindo cafunĂ©s. Com a outra mĂŁo, buscou a correntinha escondida sob a tĂșnica, enroscando um dedo nela e deslizando atĂ© tocar a pedrinha envolvida pelo pingente de prata. “VocĂȘ disse que nĂŁo tinha uma dessas na sua coleção”, lembra de um jovem Maali falar, entregando-lhe a pedrinha pouco antes de dar-lhe as costas e sair. 

NĂŁo assistiria a morte de Li’a como mero espectador. Depois que terminassem o que tinham ido fazer em Farkas, seria o responsĂĄvel por destruĂ­-la. 

Se ia perder aquela raposa, que fosse por suas prĂłprias mĂŁos, nĂŁo ao capricho dos Imortais. 

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— Aquele nivariano, onde estĂĄ? — bradou Ravi, entre uma tosse e outra. — Ele nunca estĂĄ quando eu chamo! 

Sua saĂșde jĂĄ tinha visto dias melhores. O peito, carregado pela tosse, queimava a cada pigarro como se habitado por uma colĂŽnia de lagartas de brasa; seus olhos pareciam injetados de raiva, vermelhos e secos, nĂŁo importava quantas vezes os lavasse, aflito.

— Marido, tenha calma — intercedeu Juno com um aperto enfĂĄtico em seu pulso. Ela tentou disfarçar a prĂłpria tosse, sem sucesso. 

Ravi rosnou, livrando-se do toque e socando a mesa de madeira com tamanha força que a trincou. O impacto fez virar os dois copos de rum vulcĂąnico pela metade. Um leva-e-traz afobado, que se aproximou para limpar a bagunça, foi agarrado pelo pescoço e erguido do chĂŁo pela força da mĂŁo do lĂ­der Farkas. 

— Mestre Farkas
 — começou, sem voz, antes que seu pescoço estralasse e ele caĂ­sse de volta ao chĂŁo, jĂĄ sem vida. 

— Mandem que o rapaz veja se pode arrumar isso tambĂ©m, quando chegar — anunciou Ravi. A voz arranhando a garganta abriu espaço para uma nova crise de tosse. 

— Ravi! — Juno voltou a chamar, segurando seu punho agora com ambas as mĂŁos enquanto encarava o corpo do leva-e-traz jogado no chĂŁo com uma expressĂŁo contrariada. 

Os Imortais jå presenteavam as Cidades Flutuantes com uma nova manhã, mais clara e abafada que o normal. O mormaço lembrava o rastro quente trazido pelos Fronteiriços diretamente do vórtex.

— E meu filho, alguĂ©m sabe onde estĂĄ? — questionou Juno, amparando o marido enquanto tossia.

Os leva-e-traz perto da porta se entreolharam de um modo agitado. Dois deles deram um passo para trĂĄs, deixando na frente um dos funcionĂĄrios mais jovens, cujos ombros ossudos tremiam como folhas na ventania. 

Ele se prostrou no chão, as mãos contra o piso de madeira do quarto, sob o olhar inquisitivo de Juno e o outro, mais ameaçador, de Ravi.

— Onde estĂĄ o meu filho? — ele perguntou depois de controlar a crise de tosse com um Ășltimo pigarro. 

Ravi se aproximou com passos firmes, até que alcançasse o leva-e-traz perto da porta que trazia aos seus aposentos. Se abaixando até ficar de cócoras, encarou o jovem. Um pouco mais e podia fazer com que ele se mijasse de medo frente a nada além da ameaça em seu olhar.

— D-dormindo, mestre — entregou o rapaz, aflito. — O jovem mestre Farkas abateu o Fronteiriço com os lobos no meio da madrugada. Ele deixou bem claro a todos que
 nĂŁo gostaria de ser incomodado atĂ© que acordasse, mestre. 

Mal terminou de falar e o jovem gritou, assustado. Ravi prendeu a mĂŁo em seu cabelo, puxando-o sem qualquer cuidado.

— Quem dĂĄ as ordens aqui? Sou eu ou Ă© o meu filho? 

— É o senhor, mestre
 — ele respondeu, incerto.

— Bom que ainda se lembram — o lĂ­der ironizou, empurrando o leva-e-traz para longe, fazendo-o cair no chĂŁo. 

O garoto ainda tremia, parecendo desacreditar que, depois de ver Ravi matar alguĂ©m por tĂŁo pouco, poderia mesmo sair vivo daquele quarto. 

— E Yan? — Juno completou. Por sua expressĂŁo, denotava jĂĄ saber a resposta Ă quela altura. 

— Com ele, madame — entregou uma leva-e-traz um pouco mais velha logo atrĂĄs, enquanto amparava seu colega caĂ­do. — O curandeiro voltou ainda mais tarde do que o jovem mestre, acompanhado do Senhor Instrutor da Ópera. O jovem mestre e ele subiram para os aposentos e foi entĂŁo que o jovem mestre disse que nĂŁo era para ser incomodado atĂ© que acordasse.

Ravi respondeu com um sinal de silĂȘncio. Apoiando a mĂŁo no joelho, ergueu o corpo forte, contendo uma nova crise de tosse. 

— VocĂȘ vĂȘ, minha senhora — ele satirizou —, como seu filho cresceu indisciplinado apesar das minhas tentativas? Enquanto deveria estar agindo como futuro lĂ­der, ele se ocupa em trepar e dormir; quando deveria estar considerando um novo noivado, passa mais tempo enfiado no quarto com um puto nivariano. 

— O nome dele Ă© Yan.

A resposta de Oz, bem Ă  porta, era repleta de repreensiva seriedade. Havia acabado de subir a escadaria interminĂĄvel que levava aos aposentos dos pais, mas sequer estava ofegante. Tinha as vestes completas do clĂŁ, ainda que visivelmente recĂ©m-saĂ­do da cama, e o crĂąnio de lobo sobre a cabeça, mesmo que os cabelos estivessem em um emaranhado mal preso em um semicoque. 

— E ele Ă© nosso curandeiro — completou, dando um passo para dentro —, nĂŁo um puto ou qualquer outra ocupação que vocĂȘ resolva bradar sĂł por ter acordado com um pouco de tosse. 

— Ele tambĂ©m nĂŁo Ă© um candidato a noivo — troçou Ravi. — EntĂŁo o que ele Ă©, o seu bichinho de conforto? Meu herdeiro devia gastar mais energia com pessoas adequadas.

Oz rosnou um aviso em resposta. Do pĂ© da escadaria, um pequeno grupo de leva-e-traz acompanhava a cena com olhares intrigados. 

As brigas entre o lĂ­der Farkas e seu Ășnico herdeiro eram uma constante conhecida de qualquer funcionĂĄrio ou discĂ­pulo interno do clĂŁ. As fofocas espalhavam-se igualmente por todo o territĂłrio da cidade. 

Nix, a grande loba híbrida, avançava ao lado da perna de Oz, tão alta e robusta que sua cabeça chegava a bater na cintura do farkasiano. Ela parecia capaz de carregar uma pessoa de pequeno porte em um trote ritmado.

Ravi mirou a loba com uma careta. Fez sinal para que ela viesse sob seu comando. O animal sapateou no chĂŁo, emitindo um som entre uivo e um choro de protesto.

— Yan jĂĄ estĂĄ vindo. Assim que fomos chamados, saiu para colher ervas frescas para o seu remĂ©dio. Mais fortes, ele disse. JĂĄ que o chĂĄ nĂŁo parece ter efeito desta vez — disse Oz, firme, e franziu o nariz. 

Rolou os olhos pelos aposentos, finalmente notando o corpo do leva-e-traz jogado perto da mesa. Um fino rastro de lĂ­quido escorria pela quina e pingava entre seus olhos vidrados, correndo pelo rosto atĂ© entrar pela fresta aberta dos lĂĄbios. Nix rosnou. 

— VocĂȘ ficou louco? — acusou Oz, avançando na direção do pai. Notou, pelo canto dos olhos, a mĂŁe escondendo uma nova crise de tosse, entĂŁo virou o corpo. — Saiam — ordenou para os demais funcionĂĄrios.

— Quem vocĂȘ pensa que Ă©, garoto? — rosnou Ravi assim que ficaram sozinhos. Aproximou-se alguns passos atĂ© ter o rosto perto do do filho. Era alguns centĂ­metros mais alto do que ele. — Se Yan jĂĄ estĂĄ vindo, nem precisava se incomodar. Pode voltar para sua cama. 

— Eu vim porque, pela forma como esmurraram a minha porta, soube logo que vocĂȘ estava surtando — ele respondeu, no mesmo tom. — E Ă© verdade. VocĂȘ matou um leva-e-traz por nada?

O crĂąnio de lobo na cabeça de Oz quase tocou o que se projetava sobre a cabeça de seu pai. Nix voltou a emitir um uivo de aviso. 

— É sĂł mais um trabalhinho para o rapaz — justificou Ravi, sem paciĂȘncia, mexendo a mĂŁo no ar como se considerasse aquilo uma perda de tempo.

Oz respirou fundo. Aquele era o tratamento que o pai sempre tinha para Yan: o de um curandeiro promissor que habitava o Hall a convite seu desde antes da queda de Nivaria. Que Ravi o tratasse mal quando estava nervoso tirava Oz do sĂ©rio. Veio na frente para conter o que quer que fosse antes que Yan se tornasse alvo do temperamento do pai. 

Um novo pigarro de Juno fez Oz erguer o olhar, preocupado. 

— MĂŁe? TambĂ©m estĂĄ se sentindo mal?

Franziu a testa, abandonando o enfrentamento para acudi-la. Ofereceu o braço para levå-la de volta a uma cadeira, o que ela recusou. Banjorianos não eram tão propensos a demonstrar vulnerabilidade. Sua mãe, vinda de um clã poderoso da cidade, era ainda menos.

— Seu pai mal dormiu, Oz — entregou ela. Tinha escolhido ignorar o corpo no meio do cĂŽmodo. — Nem pĂŽde combater com vocĂȘ e os lobos o ataque do Fronteiriço. O calor e a tosse nĂŁo o deixaram em paz — completou em meio a um pigarro. 

— E nem a vocĂȘ, pelo jeito — bufou Oz, olhando de um para outro.

O calor de Farkas era notĂłrio entre as Cidades Flutuantes. As temperaturas nĂŁo eram tĂŁo ĂĄridas quanto as do Deserto do Fim do Mundo, de onde vinha a Ăłpera, mas o clima era infinitamente mais abafado, como o de uma estufa. 

Era comum que visitantes sentissem nĂĄuseas e dores causadas pelo tempo. Mesmo moradores antigos experimentavam sintomas do tipo vez ou outra. Que seus pais fossem atingidos no mesmo momento era, por outro lado, inusitado. 

— Isso se parece bem mais com uma doença — Oz vocalizou.

— Provavelmente Ă© o caso  — concordou Yan no momento em que atravessou a porta, atraindo os olhares dos trĂȘs.

Curvou o corpo em uma reverĂȘncia polida e discreta, mas rĂĄpida, para estar com as costas eretas antes que Ravi cruzasse os poucos passos que os separavam com uma expressĂŁo assustadora. O lĂ­der Farkas agarrou seu pulso por cima da marca de queimadura, apertando-o em uma ameaça. 

— Quando for chamado, rapaz — começou ele —, venha na primeira vez. Assim como faz para atender o chamado de meu filho para aquecer sua cama. É esse o problema? Te acolhemos no Hall com a ocupação errada? 

Ele apertava seu pulso e Yan sentia a mĂŁo querer abrir. Trazia nela um punhadinho de ervas frescas colhidas nos arredores do Hall da Conflagração, numa pequena plantação feita a seu pedido para atender o clĂŁ e quem mais precisasse nas redondezas. 

— Chega. — Oz se colocou no caminho. A mĂŁo, espalmada no peito do pai, o empurrou por reflexo, forçando-o a soltar o braço do curandeiro para que nĂŁo o puxasse consigo. 

Yan encolheu o braço, escondendo-se atrĂĄs das costas de Oz, encostando os antebraços em seu corpo. EntĂŁo espiou Ravi, pendendo a cabeça para o lado. Sua cauda se agitava, ressentida, assim como Shu, emudecido em meio ao seu cabelo. 

— Eu estava colhendo ervas para o seu remĂ©dio, mestre Farkas — justificou, descendo o olhar para a queimadura do braço, onde Ravi o segurara. — Ramagens e folhas para um xarope. Se a tosse piorou, entĂŁo Ă© provĂĄvel, como Oz disse, que seja uma doença mais do que um sintoma de calor desta vez. Vamos mudar o tratamento. 

O olhar do curandeiro correu pelo quarto e encontrou o corpo do leva-e-traz. Ele reagiu com um soluço fraco. Ameaçou correr para ajudå-lo jå com os olhos brilhando em um laranja intenso. Então parou ao ouvir o rosnado de lobos vindo dos cantos do cÎmodo.

— Eu e minha esposa primeiro, rapaz. E entĂŁo vocĂȘ pode resolver essa questĂŁo. 

— Mestre, se eu demorar muito
 — Yan avisou. E se calou quando Ravi voltou a socar o tampo da mesa, causando outra rachadura. 

— Primeiro eu e minha esposa — ele repetiu, enfĂĄtico, fazendo Yan se encolher de volta atrĂĄs de Oz e apertar o tecido de sua roupa. 

— Sim, mestre. 

— Se voltar a erguer a voz para ele, farei a vocĂȘ o que acabou de fazer a essa mesa.

A voz de Oz soou baixa. Era gutural e fria como uma geada. Yan sentiu os pelos do braço se arrepiarem. Aquela frieza era tĂŁo deslocada nos lĂĄbios de Oz que o fazia se sentir mais triste do que protegido. 

Ravi franziu a testa, igualmente surpreso. Yan esperou que ele gritasse para que os lobos levassem Oz para mais um dia na Casa de Repouso, mas ele nĂŁo o fez. E se calou. Chegou a imaginar se o lĂ­der Farkas o tinha ouvido com clareza. Parecia improvĂĄvel que nĂŁo, mas era igualmente duvidoso que tivesse ouvido uma ameaça tĂŁo direta e a engolido em silĂȘncio. 

Com o segundo soco, a rachadura da mesa tinha se aberto tanto que o lĂ­quido escorreu por ela, caindo no chĂŁo logo abaixo como se atravessasse uma infiltração severa. 

Ravi tomou seu lugar em uma cadeira, esperando em silĂȘncio enquanto Yan preparava seu novo medicamento, macerando ervas atĂ© formar uma base grossa como seiva, com um cheiro horrendo. 

— O que Ă© essa monstruosidade, rapaz? — perguntou depois de um tempo, em um tom muito mais brando. 

— Seu xarope, mestre. Eu sinto dizer que esse nĂŁo vai ser tĂŁo doce e tragĂĄvel quanto o chĂĄ, mas usei uma base de mel silvestre para amaciar o amargor — explicou Yan ao servi-lo. 

Ravi tomou o copo de sua mĂŁo em um gesto parecido com uma patada. E virou-o em um gole seguido de uma careta torta. Juno o acompanhou, com mais classe, aceitando sua dose de xarope e sorvendo-a sem pressa antes de devolver o copo Ă  mesa sem reação. 

— Deve melhorar agora, mestre — sussurrou Yan, evitando seus olhos. — Eu sinto pela minha demora. 

— Ele fez o melhor com o que sabĂ­amos. NĂŁo Ă© culpa de Yan que sua doença tenha os mesmos sintomas do calor. Quando ele falhou em cuidar de sua saĂșde? — Oz espalmou a mĂŁo no tampo da mesa, inclinando o corpo para frente, com os olhos fixos no rosto do pai. 

— Rapaz — chamou Ravi, se permitindo um momento de calmaria cortado por um pigarro —, vá resolver o ferimento do leva-e-traz.

— Obrigado, mestre — ele disse, agradecendo Oz com um afago perto do ombro quando se levantou para ir checar o jovem. 

Mergulhado em uma quietude desconcertante, os aposentos dos lĂ­deres Farkas pareciam um cĂŽmodo ainda mais intimidador, de paredes altas e mobĂ­lia sĂłbria, pontuada por detalhes em laranja vibrante. Tudo nele era grande, da porta aos mĂłveis, ajustado ao porte estarrecedor de seu lĂ­der, com espaço de sobra para que os lobos se acomodassem Ă s sombras. 

Os animais tambĂ©m estavam em silĂȘncio, com exceção de Nix, embora a respiração entrecortada dos hĂ­bridos ressoasse pelo quarto como um assovio de ventania. 

— VocĂȘ devia se desculpar por ter tratado Yan daquela forma — Oz disse, mantendo a voz baixa e o olhar focado. Falava apenas com o pai e, ainda que sua mĂŁe pudesse acompanhar a conversa, nĂŁo queria que suas palavras chegassem atĂ© Yan.

— E vocĂȘ criou culhĂ”es mesmo, garoto — rebateu Ravi, com a respiração cansada pela tosse. — Se for efeito do chĂĄ especial que o rapaz te dĂĄ Ă  noite, pode continuar.

Ele ergueu um sorriso condescendente. Oz fechou o punho, apertando os dedos contra a palma para conter um rosnado. 

Seu pai sempre fora capaz de fazer surgir o pior de si, um lado que Oz quase conseguia deixar morrer quando estava com Yan, ou com ele e Maali, anos antes. Pensar naquele tempo fazia abrir uma ferida antiga, com o mesmo gosto de raiva que sentia quando Ravi soltava aqueles comentårios. Mas as memórias tinham um agravante, um aroma de traição pontuado de mågoa, fisicamente doloroso, mesmo depois de tanto tempo.

— Mestre
 

A voz de Yan era baixa, trĂȘmula, atraindo toda a atenção. Ajoelhado no chĂŁo e sentado sobre os calcanhares, ele tinha a cabeça do jovem deitada no colo, com os olhos recentemente fechados. Os de Yan ainda faiscavam no lampejo alaranjado, mas tinham se enchido de lĂĄgrimas, seu brilho molhado fazendo  Oz se erguer prontamente. 

— Mestre, eu nĂŁo consigo trazĂȘ-lo de volta.

Yan tocou os cabelos do garoto, afagando-os num gesto automĂĄtico. 

NĂŁo era a primeira vez que seu dom falhava, mas era a primeira em muito tempo. Via a vida se esvaindo perante os olhos Ășmidos, se dissipando no ar como fumaça de incenso, bem diante dele, e nĂŁo importava o que fizesse, ela continuava a fluir para longe, fugindo de seu toque e de suas intençÔes.

— Yan
 

Oz o alcançou em poucos segundos, se acocorando ao seu lado com a mão em seu cabelo. Surgindo de perto da mecha loira, Shu apareceu em seu ombro com os olhinhos arregalados, encarando o corpo que Yan tinha nos braços.

— VocĂȘ fez o seu melhor — sussurrou Oz. — NĂŁo foi vocĂȘ.

Os olhos de Oz miravam o pai, acusatĂłrios. 

— Era apenas um leva-e-traz. — Ravi reagiu com um movimento de ombros, erguendo-se da cadeira, apoiado no tampo rachado da mesa. — Não perca seu sono com isso, rapaz. Considere como um indicativo de que ainda pode melhorar suas habilidades.

Yan ouviu o rosnado, mas não teve tempo de segurar Oz antes que ele se levantasse de uma vez, atingindo a rachadura profunda da mesa com a mão, fazendo-a ceder de vez. A estrutura outrora firme, de madeira maciça, se rachou e caiu no chão, dividida em duas.

— Oz! — Juno repreendeu, se afastando dois passos da bagunça.

Ao lado de Yan, Nix derrapava nas patas grandes, uivando para o ar, atiçando latidos e rosnados dos outros lobos. Shu agarrou as patinhas no ombro das vestes de Yan, apertando o tecido entre seus dedos curtos. 

— VĂĄ em frente, garoto. VocĂȘ pensa que Ă© uma porra de um lĂ­der? — Ravi tossiu. E entĂŁo mostrou os dentes, peitando a afronta do filho. — Um elogio sobre seus culhĂ”es e acha que Ă© capaz de me enfrentar? 

— Oz — Yan chamou baixo, o olhar preso no punho cerrado que ele continha. As unhas, apertadas contra as palmas, ameaçavam cortar a prĂłpria pele. 

Ele podia ser o Lobo dos Punhos de Chumbo, podia ser o farkasiano mais forte de toda a cidade, mas aquele ainda era o líder do clã. Bastava que Oz lhe erguesse a mão para ser considerado um traidor. Centenas de lobos irromperiam pela porta a um chamado. Ele poderia ser preso na Casa de Repouso sem qualquer companhia até que definhasse ou ser expulso de Farkas e forçado a buscar abrigo na terra de sua mãe. Se erguesse a mão para o líder do clã, pouco importaria que era o herdeiro.

Oz podia ser morto por uma mera intenção, a depender do humor de Ravi.

— Ficou mudo de repente, garoto? — provocou o lĂ­der Farkas. E tossiu uma vez, forte, completando com um pigarro. — Qual Ă© o problema? Valente o bastante para sibilar ameaças e firmar o punho, mas nĂŁo para acertar o soco? Foi esse o frouxo que eu criei? 

— Marido, sua boca
 — proferiu Juno em aflição. 

Ravi franziu a testa ao sentir o gosto. Levou os dedos ao lĂĄbio inferior estranhamente Ășmido, encontrando nele a gota de sangue que precedeu uma nova crise violenta de tosse.

Ele se afastou, dando as costas para um Oz ainda contido, cobrindo a boca com o punho fechado. Quando a crise passou e Ravi voltou a abrir a mĂŁo, percebeu mais gotas de sangue escarrado dos pulmĂ”es. Ergueu as sobrancelhas, alarmado. 

— Mestre, Ă© mais grave do que pensĂĄvamos — avisou Yan, secando os olhos afervorado, levantando-se depois de retornar o corpo do jovem para o chĂŁo, os olhos pacificamente fechados como se estivesse em sono profundo. — NĂŁo Ă© hora para discussĂ”es. O senhor precisa ficar em repouso.

Continua


No prĂłximo capĂ­tulo
 Algo foi esquecido e precisa ser devolvido. E a chance de isso gerar um pequeno caos Ă© real. JĂĄ pensou que loucura se aqueles quatro se trombam no mesmo lugar em SĂŁo Paulo? Com uma vovĂł no meio? Parece promissor.

ATENÇÃO! đŸšš Semana que vem Ă© a Ășltima do mĂȘs. NĂŁo teremos capĂ­tulo, mas teremos entrevista com TomĂĄs na Bunny Hour!

O Capítulo 13 — Timing perfeito chega no dia 1 de dezembro às 12h!

Ei, vizinho! NĂŁo esquece de me acompanhar nas outras redes! đŸ’«

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