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💫 Pontes Imortais ― Capítulo 38
Uma única flecha certeira
Prometi e cumpri, então trago mais um capítulo de Pontes Imortais quentinho pra vocês! Ontem (27/03) comemoramos o aniversário do nosso lobinho Victor / Oz! Fiquem até o fim do capítulo pra ver a arte especial de aniversário!
No último capítulo… Yan retornou de sua interminável (poucas semanas) viagem e encontrou Oz e Maali se sentindo abandonados (com saudade). Quando os três saíram juntos para um passeio, coisinhas aconteceram. E se antes nosso trisal inicial não estava consolidado, bom, acho que agora não passa. Mas falta uma oficialização📑 de união, não acham?
Música-tema do capítulo: In the Glow of Us, de Lee Minhyuk (a.k.a. Huta) (sigam a playlist oficial Pontes Imortais #2 no Spotify!)

Capítulo 38 — Uma única flecha certeira

Farkas, dez meses antes da queda de Nivaria
Em comparação com a chegada da comitiva farkasiana em Nivaria, a dos nivarianos foi bastante discreta. Um único carro atravessou a ponte e se chamou alguma atenção foi menos pelo estardalhaço da entrada e mais por sua estrutura exótica.
O veículo tinha a aparência de um projétil e era feito do mesmo metal verde-arroxeado comum em todas as criações nivarianas. A frente da cabine retraía-se em uma cápsula de vidro elevada no formato de uma gota, de forma que a monstruosa máscara vermelha entalhada na frente da cabine — cujos cornos alongados envolviam a estrutura — não atrapalharia a visão do condutor. Grandes janelas arredondadas enfeitavam as laterais do carro, de onde fluía uma luz quente, convidativa. No topo, uma torreta emitia silvos vaporosos.
O povo da capital acompanhou com olhos curiosos a lenta passagem da comitiva de Nivaria. Aquela imagem permaneceria gravada na retina do imaginário farkasiano por muitos anos, e as histórias mudariam: de tecnologia avançada, passariam a falar que o carro era movido por magia demoníaca. A beleza ártica dos líderes se transformaria na aparência monstruosa de “crias do vórtex”. Mas por todos aqueles dias que antecederam a oficialização do casamento entre Oz e Maali, Nivaria virou o centro das conversas, todas ditas em um tom de animada admiração.
Esses pequenos detalhes batiam asas nos pensamentos de Maali como sereias agitadas. Ao redor deles, aias farkasianas corriam de um lado para o outro para ajudá-lo a se vestir. Três costureiros importantes foram alocados no Hall da Conflagração por ordem de Ravi a fim de que providenciassem roupas especiais para a ocasião. A imagem no espelho devolveu a Maali seu olhar cinzento, afiado.
Sabia que a culpa do súbito interesse de Ravi por moda era sua.
Desde que chegara, Maali não tinha pensado duas vezes antes de aderir à moda farkasiana, cujos tecidos vaporosos eram ideais para o clima da Cidade. Um detalhe assim teria sido bem-visto por Ravi, exceto por uma particularidade: Maali fazia questão de ostentar as joias nivarianas, cuja beleza chamativa tinha o condão de transformar em um pedaço de pano tedioso boa parte das roupas que os modistas farkasianos produziam.
Não demorou quase nada para que ele se transformasse em uma espécie de ícone da moda na capital.
— Jovem Mestre — uma aia chamou ao seu lado, baixinho. E se encolheu um pouco sob o peso de sua encarada, mas só pelo tempo de perceber que ele lhe concedera um sorriso. — Quer seu estojo de joias?
— Por favor — ele concordou, esperando que a menina voltasse com o estojo para abri-lo. — Qual acha que eu deveria usar?
Ela pareceu espantada por ter sua opinião solicitada daquela forma por um mestre. Ia ficar na ponta dos pés para olhar a caixa, mas Maali teve a delicadeza de abaixá-la, deixando em uma altura confortável para que escolhesse.
— Gosto desse aqui — contou, apontando uma argola larga, feita com um trabalho delicado de filigrana prateada. Tinha visto Maali usar uma peça como aquela certa vez, enfeitando-lhe o nariz. — E o colar de ossos, como cortesia ao líder Farkas.
— O líder Farkas tem um apreço exagerado por cortesias — Maali declarou, azedo.
O gosto amargo da noite anterior persistia na boca, tão insistente quanto o coração esmurrando seu peito, indignado.
Comemorando a véspera do evento de oficialização, Ravi reunira no Salão da Grande Mesa seus principais aliados e discípulos mais ilustres, além da pequena comitiva nivariana, formada por seus pais, Mestre Inua, os líderes Han e Sedna, e meia dúzia de monges. Líder Tyr não achou necessário levar mais pessoas do que aquelas. Até que o casamento fosse organizado, haveria tempo para que Maali e Oz voltassem à Nivaria e cumprissem com as formalidades típicas daquela Cidade.
“Meu pai costuma ficar mais generoso depois de algumas canecas de vinho de cevada”, Oz lhe dissera. E Maali, que detestava as barulhentas socializações dentro do Hall da Conflagração, se forçou a colocar um sorriso no rosto por toda a noite e acompanhar as conversas. Aproveitava as brechas que Oz abria para si: ele entendia como funcionava a política farkasiana, conhecia de memória as piadas favoritas dos líderes de distrito, assim como suas histórias de origem e seus pequenos desafetos. De posse disso, Oz navegava por aquelas conversas, e se não tinha a elegância que os anos de diplomacia haviam forjado no Senhor Instrutor, sentado do outro lado da mesa, aproveitava-se do carisma.
A Maali, faltava aquele magnetismo instintivo. Era esperto, contudo: sabia onde salpicar alguma informação que soaria técnica demais, mas que acabava caindo nas graças daqueles líderes porque vinha temperada com o sorriso de Oz. Com o canto do olho, o nivariano via Ravi parecer mais e mais satisfeito com os dois. E esse era exatamente o ponto.
Devia um agradecimento ao Senhor Instrutor por essa dica.
Mais cedo naquele mesmo dia, Maali tivera a oportunidade de conversar com ele em particular. Nada além de um punhado de palavras mas — como se Kuí pudesse adivinhar nos olhos de Maali que sua alma estava inquieta —, ele lhe dissera algo que cavara um espaço fundo em sua mente.
“Esse lugar é uma armadilha, benzinho”, Kuí havia comentado, brincando com os longos brincos de Maali, bastante interessado nos rubis-sangue que lhe enfeitavam as pontas. “São as raposas as primeiras a reconhecê-las, é o que dizem em Nivaria, não é? Seja um bom camaleão então, e escolha um bom disfarce. Um que te coloque no topo, onde ninguém pode ignorá-lo.”
Kuí esquecera de comentar, no entanto, que líderes como Ravi dão pouca atenção aos apelos de dois jovens sem qualquer poder. Assim que notaram que o líder Farkas tinha se afastado com um longo cachimbo que pitaria no pátio do pavilhão, Maali e Oz pediram licença aos demais.
Yan era o tema, é claro. E Ravi gargalhou ao escutá-los, como se tivessem acabado de falar a maior das tolices. “Incluir Yan na união de vocês?”, ele vociferara com entusiasmo, balançando a cabeça em seguida. “Aquele garoto não é ninguém.”
“E ainda assim você exibe os dotes dele em qualquer conversa que tem, como um bicho exótico”, Oz respondera, ao mesmo tempo aturdido e exasperado. “Quando se trata de erguer o seu status diante dos outros líderes, então Yan é bem importante.”
Maali não esqueceria de como Ravi ameaçou erguer a mão para acertar Oz com um tapa e então vacilara, certamente por se lembrar de que Maali ainda estava ali. Tampouco poderia enviá-los para a Casa de Repouso àquela altura das coisas, então apenas decidiu ignorar os dois rapazes pelo resto da noite, utilizando alguns discípulos como muralha para impedir que tentassem abordá-lo novamente.
O Senhor Instrutor estava certo sobre raposas e camaleões, mas não conhecia Maali, afinal. E ele não tinha a paciência diplomática necessária para resolver aquela situação com delicadeza. Era sua vida e a de Oz, a união dos dois — e bastava que tivessem sido obrigados a aceitá-la mais por laço político do que por um amor que só germinou depois. Se queriam casar com Yan, então Maali resolveria aquilo como um monge-caçador faria: uma única flecha certeira, na hora certa.
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— Você tá bonito.
O comentário de Oz finalmente fez Maali sorrir com sinceridade naquela manhã. Estavam sentados lado a lado no palco da praça central. Camarotes menores, cujas estruturas tinham sido montadas em tempo recorde graças à eficiente equipe da Ópera, os rodeavam. O povo farkasiano dava ao local a aparência de um formigueiro, aglomerando-se para assistir ao anúncio do casamento de seu querido Jovem Mestre.
Naquele momento, Ravi fazia um discurso raso e empolgado sobre unir povos em torno de um objetivo comum.
— Você também — Maali respondeu, pousando a mão sobre de Oz.
Podiam ver Yan de onde estavam, em um dos camarotes mais próximos. Acompanhado de Jiao e Nyan, ele parecia bastante confortável apesar de todos os desconhecidos que o cercavam, cutucando-o com perguntas de instante em instante. Ao erguer o olhar e encontrar os dois o encarando, Yan presenteou-lhes com um sorriso. Sim, gostaria de estar ali em cima, ao lado de ambos, mas não precisava de oficializações. Bastava o que sentiam, o que os três desejavam. Assim como a vontade dos Imortais pouco interessava a Yan, os arranjos políticos de Cidade alguma tinham qualquer peso em seu coração.
Nesse ponto, ele e a mãe pareciam estar de acordo. Inclinando-se sobre seu ombro, Jiao sussurrou:
— Seja esperto. Não deixe que eles percam o interesse em você.
— Não fale alto demais — Yan alertou, então sorriu. — Vão acabar achando que você é só uma aruviana aproveitadora, mãe.
A forma como Jiao se retraiu, chocada, deixou Yan satisfeito. Era melhor que ela aprendesse a ficar calada. Não estavam mais em território nivariano, onde as palavras dela causariam embaraço, mas não discórdia. Já naquela época, ele parecia saber bem em que tipo de terreno lamacento estava pisando.
O silêncio súbito fez Yan voltar a olhar para frente. Ravi fizera uma pausa no discurso e agora estava esperando por algo.
— A oficialização é feita pelos noivos — Nyan sussurrou para o irmão. — Depois de anunciada pelo líder da Cidade. Anteontem, na feira, estava todo mundo empolgado falando sobre como funcionaria a cerimônia — explicou.
— Você não acha que é muito fofoqueiro, moleque? — Shu, que descansava no ombro de Yan, debochou.
— Não é fofoca se estão falando em voz alta — Nyan se defendeu, calando-se quando Yan fez um gesto para que ficassem em silêncio.
Lado a lado, Oz e Maali tinham uma aura poderosa. Para o público, era a energia que dois talentosos jovens mestres deveriam ter. A força e a memória prodigiosas de Oz, assim como seu carisma, já eram velhos conhecidos dos farkasianos. E eles receberam com interesse e expectativa as histórias sobre o nivariano que fora criado como um monge e que derrubara três grandes Fronteiriços com sua mira perfeita. Para aquele gente, os dois eram impressionantes por sua força. Para Yan, contudo, o poder que via estava nos detalhes: a tendência para a doçura temperada com um comportamento colérico que em Oz era barulhento como os trovões e em Maali, silencioso como os raios. Inconscientemente, Yan colocava os dois em uma posição muito parecida à que Oz costumava colocar os pais em sua cabeça.
Oz vestia as cores dos Farkas: o índigo profundo com fios de ouro formando detalhes bordados nas barras das mangas. Sobre a cabeça, o crânio de lobo emprestava-lhe o tipo de imponência que faltava a Ravi, aquela que não é forçada, mas que nasce incrustada nos ossos de alguém e que vai sendo lapidada ao longo dos anos. Quanto a Maali, o líder Farkas não tinha permitido que usasse as cores da família. “Você vai entender”, ele tinha dito com um sorriso irritante. “Há coisas na sua cultura que só podem ser divididas quando as uniões são oficializadas, não é?”. Maali apenas intuiu sobre o que Ravi falava, e detestou aquele tom.
Ainda assim, suas roupas eram muito bonitas, a túnica branca expondo-lhe os ombros e os braços, atraindo a atenção dos farkasianos para os símbolos e runas escarificados em sua pele como um mapa feito de pele. Nos cabelos, usava fitas vermelhas. Era uma comemoração, afinal, e se a felicidade não o aproximasse dos deuses, então que a insubmissão o fizesse.
Oz lhe ofereceu a mão e Maali a segurou, os dedos enlaçando-se aos dele. Lobos cercavam a área logo em frente ao palco e começaram a uivar como se o gesto os alegrasse. Nix era a mais empolgada entre eles e seus uivos deixavam os companheiros mais agitados. A formalidade da ocasião se transformou em divertimento e Oz, cujos ombros tensos começavam a relaxar, desabrochou em um sorriso morno, esbanjando conforto.
— Ainda não me acostumei com a ideia de que tenho quase duzentos anos e já posso me casar — disse, arrancando risos ao redor. — Pra ser sincero, pensava bem pouco sobre o assunto, e menos ainda sobre a possibilidade de casar com um raposo tão sério quanto esse aqui do meu lado, mas é… Ele parece ser a pessoa certa, afinal.
— Uma das… — Maali disse baixinho, a voz abafada pelos assobios de apoio e palmas que vinham dos camarotes e do público.
Quando Ravi falava ao povo de Farkas, precisava encher o peito, fazer a voz reverberar, sobrepondo-se aos ruídos até que entendessem que o líder estava falando e deixassem o silêncio assentar. Para Oz bastava sorrir e fazer um gesto tranquilo com a mão para que todos acalmassem os ânimos. Era juvenil, informal. Nos camarotes ao seu redor, nenhum dos pequenos líderes farkasianos parecia à vontade com a ideia de que aquele garoto que controlava uma manada com covinhas marcando-lhe as bochechas se tornaria o líder em algum anos. Um líder mais jovem que eles, mais carismático e decerto mais forte.
Popular.
Aquele azedume, Yan veria se espalhar ao longo dos anos, em grande parte açulado por Ravi. Contudo, naquela manhã tudo o que via era o potencial das mãos unidas de Oz e Maali, e seu coração acelerou como se pudesse antecipar as ações deles em seus micromovimentos.
— As tradições de Farkas pedem que eu oficialize essa união, mas vocês sabem que nunca fui o maior fã de regras — Oz continuou, suas palavras seguidas por outra onda de risos. — Maali me ensinou a respeitar as tradições de Nivaria. Não em uma sala de aula — disse, segurando o riso diante das sobrancelhas erguidas de Maali —, mas me derrubando no chão e ameaçando me enfiar o respeito goela abaixo, junto com o punho dele.
Nem os líderes puderam escapar da graça daquela imagem. O líder Tyr balançou a cabeça, sorrindo discretamente, e Amka escondeu o riso contra o dorso da mão. Mesmo Kuí, sentado à esquerda de Ravi, em posição de destaque, se permitiu uma risadinha. Naquele camarote, o rosto do líder Farkas era o único que ficava mais e mais sério, ganhando tons de vermelho.
— Deixo nas mãos dele falar o que decidimos para nossa vida — Oz completou, encarando Maali.
Era difícil dizer quando tomaram aquela decisão. Talvez tenha sido depois daquela primeira noite juntos, quando o dourado terno do sol se infiltrando pelas cortinas despertou a ambos. Deitado de bruços entre os dois, Yan ainda dormia: um braço descansava sobre o peito de Maali e o rabo felpudo envolvia a coxa de Oz. O sol tocava-lhe o contorno das costas, emprestando à sua pele a textura de um sonho. O tempo temporariamente suspenso tinha a melodia de um começo de dia, em cujo tecido os Imortais costuravam o som dos pássaros e das pessoas recém-acordados, o toc-toc constante que poderia ser um pica-pau ou um lenhador, os saltos de madeira de uma matrona ou um galho insistente contra a estrutura das casas.
É, certamente foi ali que decidiram que seriam os três juntos, ou não seriam.
— Vou ser breve para não atrapalhar o banquete — Maali tomou a palavra. Não esperava que suas palavras causassem simpatia, visto que só estava falando a verdade, mas conquistou sorrisos mesmo assim.
Maali armou sua flecha imaginária. Oz tinha preparado o terreno, colocando todos os olhos sobre os dois, amaciando o coração das pessoas com sua rumorosa simpatia. Era igual caçar: a mesma tensão nos ombros, o mesmo formigamento na ponta dos dedos. A única diferença era sua magia estalando na ponta da língua, implorando para ser usada. Maali não tinha ideia se aquilo funcionaria com tanta gente ao mesmo tempo, se convenceria tantos corações de uma só vez. Provavelmente não. Mas a magia o ajudaria a materializar uma das verdades mais fortes em seu peito.
— Eu, Tyr Maali, oficializo hoje, diante de meus pais e sogros, e diante deste povo que também vai se tornar meu, a minha união com Oz de Farkas e Uki Yan.
Alguns segundos de silêncio podem se alongar por anos na cabeça de alguém. Maali e Oz viveram muitas vidas naquele segundo, as possibilidades do depois saltando feito diabretes em suas cabeças. Suas mãos não se soltaram, como se temessem que o chão se abrisse sob seus pés por tamanha ousadia, como um castigo dos Imortais por desafiarem tantos tabus de uma só vez.
Quando o mundo explodiu em palmas e vivas, foi como se os dois fossem arrancados de dentro de uma redoma de vidro, todos os sons voltando de uma vez, invadindo-lhes os ouvidos. Àquela altura, o rosto de Ravi era brasa pura e ele parecia ter perdido a capacidade de falar. De que forma a recepção daquele Uki estava sendo tão grande, sequer poderia imaginar, mas Oz e Maali sim. Um curandeiro gentil com o dom de trazer os mortos de volta à vida como líder? Os farkasianos, tão orgulhosos de sua grandiosa nação, sem dúvida adoraram a novidade. Estimulados por uma pitada de magia, então… Com esse detalhe, Oz não contava. No futuro, Maali poderia abrir mais esse pedacinho de seu coração para ele e Yan. Por hora, não era necessário que eles o conhecessem tanto assim.
— Vai, filho! — Jiao estimulou, empurrando Yan pelos ombros para que acompanhasse um dos leva-e-traz que viera buscá-lo em seu camarote após uma discreta ordem de Juno. — Estão esperando por você.
Jiao tivera a presença de espírito de reagir apenas depois de ver a recepção ao anúncio. Não se colocaria em maus lençois por uma impulsiva decisão juvenil, mas se o povo aplaudia de pé aquela união, Ravi seria tolo de reprová-la abertamente.
Pelo visto, Juno chegara a uma conclusão parecida. Tomou a dianteira do marido, ainda em choque por ser desafiado daquela forma, e se levantou para pedir a um leva-e-traz que trouxesse Yan o quanto antes até o camarote. De forma nenhuma ela permitiria que aquilo parecesse fora do controle de Ravi.
— Vai ser como nas histórias dos primeiros Imortais — Yan ouviu um líder idoso comentar animado no caminho até o camarote dos Farkas. — Vocês jovenzinhos não vão lembrar, nem fazem questão de saber — ele continuou, aproveitando para ralhar com ninguém em especial —, mas não era incomum que os primeiros Imortais ascendidos casassem entre si, formando uma única família.
— Ouviu só, Yan? — Shu regateou, prendendo-se às roupas de Yan para não cair. O leva-e-traz parecia ter pressa para levar o rapaz. — De acordo com o velhinho, você pode pleitear mais alguns maridos. E o posto de Imortal.
— Já vai ser uma sorte se eu puder pleitear o posto de noivo — Yan ponderou.
Admirava as intenções de Oz e Maali, mas Ravi deixaria aquilo barato? Sentia que o líder Farkas seria capaz de cavar razões para rebaixar Yan novamente ao posto de curandeiro, sem nenhuma outra relação com sua família além do trabalho. Tampouco confiava na comoção dos farkasianos porque intuía que a memória emocional deles era tão curta quanto a vida de uma mariposa.
Deixou de lado os temores e se muniu de um sorriso quando alcançou o camarote dos líderes. Os líderes nivarianos o abraçaram, felizes com a surpresa. Mesmo Juno o recepcionou com um sorriso, apertando a mão do marido para que Ravi lhe estendesse a mesma gentileza.
— Bem-vindo à família, Yan — disse Juno. Ele achou que a voz suave de Juno era igualzinha à que imaginava nas feiticeiras crueis das histórias de Maali. Gentil demais, distante no ponto certo.
— Obrigado, Madame — ele respondeu. Voltando-se para Ravi, prestou-lhe uma reverência. — Líder Farkas.
— Bem-vindo, garoto — o líder grunhiu. Chamava Yan de garoto no mesmo tom que usava com Oz, como se não conseguisse nutrir por ele respeito algum.
Levantando-se novamente, Ravi abriu os braços em um gesto amplo diante do público em polvorosa, e a gritaria aumentou, pontuada por uivos estridentes.
— Nada como uma boa surpresa para animar o nosso dia! — disse, rindo. — Três noivos significam três dias de festa afinal. Nenhum casamento será tão animado quanto os dos meus queridos filhos. Afinal, Maali e Yan já são como filhos para mim. E aqui aproveito um pouco das palavras de Maali: já é hora do banquete.
Com uma agilidade mágica, os leva-e-traz abriram caminho na multidão para colocar cinco grandes mesas onde a maioria das pessoas poderia se sentar. Quem não conseguiu espaço se virou como deu: uns até foram ousados o bastante para escalar o telhado de alguns camarotes dos líderes menos cerimoniosos, apoiando nas coxas os pratos recheados de carne temperada e batatas que os colegas de baixo conseguiam passar.
Maali, Oz e Yan estavam sentados diante de uma mesa mais baixa, colocada diante do palanque dos líderes. Bebendo seu vinho de cevada em goles pouco parcimoniosos, Ravi demorou para desgrudar os olhos daqueles três, metidos em seu próprio mundinho como se não tivessem feito nada de mais e fossem apenas um bando de crianças tolas. Mas a bem da verdade… Um segundo nivariano naquela união poderia lhe dar alguma vantagem.
Percebendo que Mestre Inua estava finalmente sozinho na cadeira ao lado, Ravi se inclinou em sua direção, engatilhando um sorriso que não chegava a ter metade do charme que o sorriso de seu filho conseguia ter.
— Não — Inua lançou antes mesmo que Ravi pudesse dizer qualquer coisa. Era fácil para o monge intuir qual assunto o líder Farkas pretendia abordar no meio de uma cerimônia. E era deselegante. Só aumentava o desconforto que sentia diante da união de seu sobrinho com um farkasiano. — Ainda não é hora de compartilhar os detalhes da nossa tecnologia, líder Farkas. Depois do casamento, sim. Como parte de Nivaria, os três terão permissão para acessar os manuais de qualquer tecnologia a que os cidadãos comuns têm acesso.
— Cidadãos comuns? — Ravi repetiu. As muitas canecas de vinho de cevada o traíram, adicionando ao seu tom doses iguais de ganância e decepção. Consciente daquilo, Inua sorriu.
— Logicamente. Qualquer tecnologia confidencial continua sendo propriedade apenas da Cidadela. Além disso — o monge acrescentou, sorrindo — Maali não é mais um monge. O líder Farkas sempre poderá consultar a Cidadela sobre o uso de tecnologias avançadas ainda assim. Somos uma mesma família, afinal. Vamos ajudá-los, como fizemos com Banjora e faremos por qualquer Cidade.
O rosto de Ravi se contorceu em uma mímica de sorriso. Em poucas horas sentia seus planos escorrerem entre seus dedos, como uma maldição dos Imortais. Como se eles intuíssem seu anseio em superá-los e enchessem seu caminho de obstáculos. Se recompôs. Bastava sua demora em reagir ao anúncio de casamento: não daria a ninguém a honra de desestruturá-lo novamente no mesmo dia.
Percebeu Kuí pela visão periférica, o rosado de seus cabelos atraindo o olhar de Ravi. O Instrutor parecia consciente da breve conversa entre os dois porque sorriu para o farkasiano, erguendo a taça em um brinde discreto. A Ravi, aquele era o gesto de que precisava. Ele pediu licença a Inua, levantando-se para falar com o diplomata. Se os caminhos comuns não lhe permitiriam ter o que precisava, então tentaria os alternativos. Se mesmo esses falhassem, usaria as próprias mãos para buscar o que queria.
— Faça cara de festa, meu querido — Kuí estimulou. De volta a Farkas, estava novamente munido de suas inseparáveis cobras. — Há coisas mais interessantes ao seu redor do que você imagina.
Realmente havia. Kuí dividiria a maior parte delas com Ravi nos dias seguintes, mas um segredo manteria consigo enquanto não soubesse o que fazer com a informação, divertindo-se com a ideia de só agora ter percebido aquele detalhezinho essencial: a faísca de magia na voz de Maali que incitara os farkasianos a recepcionar tão bem o presença de Uki Yan naquele casamento.
À sua maneira, Kuí também armava suas próprias flechas.

Continua…
No próximo capítulo… Uma história um pouco… diferente. Vamos deixar os noivinhos curtindo a lua de mel e mirar nossos olhares em outra direção. Há algo que eu gostaria que vocês vissem.
O Capítulo 39 — Sem origens chega em 4 de abril de 2025!
E aqui está a arte incrível feita pela Midori (@midori_m42) para o aniversário do Oz / Victor! Esqueci de comentar na arte do Yan (capítulo 36), mas a roupa foi inspirada num look usado por Yoon Jeonghan, do Seventeen, no photoshoot oficial do single JP Shohikigen. E esse look do Oz foi inspirado no look de Kim Mingyu, também do Seventeen, na apresentação do grupo no Lollapalooza Berlin 2024. Meus amigos Carat disseram que as referências eram de extrema importância, então aí estão! Espero que tenham gostado tanto quanto eu!! O que acharam das inspirações de look em idols? Devemos continuar?

O que acharam das inspirações de look em idols? Devemos continuar?

Ei, vizinho! Não esquece de me acompanhar nas outras redes! 💫
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