💫 Pontes Imortais ― Capítulo 37

Então, nós três?

Aqui pelo Vórtex, sexta-feira às 12h já é praticamente feriado! É dia de gays vilões! No capítulo de hoje especialmente gays!

No último capítulo… Oz e Maali foram deixados sozinhos e abandonados por um Yan muito mau que resolveu passar um tempo ajudando a família, mas parece que os dois souberam fazer licor dos jambos que a vida os deu e se entenderam bem melhor! Teve tempo até para algumas estadias na Casa de Repouso, uma quase pegação e um pouco de fofoca de bar sobre um tal criminoso farkasiano conhecido como Colosso.

Música-tema do capítulo: Darl+ing, de Seventeen (sigam a playlist oficial Pontes Imortais #2 no Spotify!)

Capítulo 37 — Então, nós três?

Farkas, onze meses antes da queda de Nivaria

— Ouvi dizer que vocês se divertiram um tantinho.

Yan segurou o riso enquanto bebia um gole do chá de ervas especial preparado na cozinha do Hall. Tinha ficado fora pouco mais que um mês, empenhado em auxiliar na instalação de sua família nas dependências farkasianas — e em não deixar que a mãe fosse apenas um fator de estresse na vida de Nyan. Tinha chegado de viagem há tão pouco tempo que o capuz da capa que vestira na estrada ainda pendia dos ombros, preso ao pescoço por um laço bem acomodado.

— Se divertiram, jovenzinho? Isso é apelido. Esses dois aí causaram muito, isso sim — segredou a velha senhora responsável pelo chá, uma cozinheira tão antiga da família Farkas que se recusava a abandonar as tarefas nas mãos de qualquer “jovenzinho inexperiente” e já havia adiado a própria aposentadoria duas vezes. Se chamava Runa, o que corroborava para que Oz insistisse em chamá-la de Oráculo das Antigas, coisa que sempre lhe rendia um suave peteleco bem na ponta da orelha.

— E quem foi que te perguntou, hein? — ele retrucou, largado no banco ao lado de Yan. — Tem boca demais pra ficar maldizendo seu futuro líder. 

— Ah, pelos Imortais. Eu já vou estar bem longe deste plano quando entregarem as terras nas mãos deste filhote linguarudo. É que a gente aqui achava que um ex-monge das neves fosse fazer alguma coisa por esse seu comportamento. Euzinha não esperava nenhum milagre, mas também não achava que ele é que ia cair junto na gandaia — ela resmungou, trazendo um pote de mel, que posicionou ao lado de Yan na mesa antes de docemente tocá-lo nos cabelos. — Aqui, meu bem. Pra adoçar sua chegada. 

— O que significa essa expressão “gandaia”? Em Nivaria, não a utilizamos.

A resposta veio de Maali. Em pé, no batente da porta, parecia tão oficial quanto um guarda, não um convidado. Ele cruzou os braços, tentando restabelecer o pouco de respeito que ainda devia ter depois da tal “gandaia” para onde Oz o havia levado, segundo as línguas farkasianas.

— Também não usamos mel para adoçar bebidas de ervas, senhora. Mas obrigado. — Yan ofereceu-lhe um sorriso dócil que foi correspondido.

— Você é mesmo um garoto gentil, como diziam os boatos vindos da ponte. — A velha arriscou um lampejo de olhar para Maali enquanto retirava o pote de mel para guardar. — E habituado a coisas amargas, pelo que notei.  

Entretido pela alfinetada, Yan segurou o riso e  então assoprou o chá, enquanto a senhora Runa soltava o laço do avental e anunciava sua saída da cozinha. Já tinha trabalhado muitas horas excedentes, disse antes de sair. Yan agradeceu mais uma vez pelo chá. E pelos biscoitos que servira antes dele. 

Por mais que provocasse Oz, Yan entendeu que era por ele que Runa tinha ficado na cozinha até aquela hora. Não para agradar um curandeiro qualquer contratado pelo seu líder, mas porque as mesmas línguas que lhe fofocaram sobre sua “natureza doce” também devem ter dito que era próximo de Oz. Não seria menos do que doce nesses termos. Havia muito a ganhar se tivesse a confiança e o respeito dos funcionários farkasianos — ou, ao menos, caso a primeira opção não fosse possível, que soubessem que Oz e Maali haviam esperado por ele na saída da trilha.

Não, não era apenas um curandeiro. Isso estava claro. 

— Então… — Yan puxou o assunto assim que ficaram sozinhos na cozinha, os três, e o silêncio se abateu. — Sentiu minha falta?

“Sentiu”, não “sentiram”. Yan sabia quais botões apertar. Oz era teimoso na mesma proporção que Maali era orgulhoso. Apesar de estarem mais próximos, se fizesse a pergunta para os dois, era capaz de não receber resposta alguma, porque nenhum dos dois assumiria que Yan os via como uma equipe. Era bobo — infantil, na verdade —, mas ele aceitava. Via charme naquilo, como se presenciasse duas criaturas difíceis batendo cabeça em vez de admitir que gostavam da companhia um do outro. Também observava de perto a mudança que nenhum deles seria capaz de confessar. 

Com a pergunta posta daquela forma, Yan recebeu duas respostas sobrepostas. De Oz, um birrento “você sabe que eu senti”, enquanto a resposta séria de Maali veio com um simples “sempre”, que arrepiou-lhe os pelos das orelhas.

— Que bom — respondeu baixo, mexendo o chá dentro da xícara. — Seria uma droga se só eu tivesse ficado com saudade de vocês. 

O sorriso que tomou o canto da sua boca desapareceu logo em seguida, com um gole calmo do chá, enquanto deixava que Oz e Maali absorvessem o que tinha acabado de dizer. 

— E vocês nem imaginam o quanto! — Se segurando apenas com a pata boa, Shu deslizava pela manga das vestes de Yan em direção à mesa, os olhos focados no prato de biscoitos deixado por Runa. — O coitadinho chorou dia e noite só por causa de vocês.

— Isso é verdade? — Maali perguntou. Oz aguardou a resposta, surpreendentemente quieto. 

— Mas é claro que não! Vocês se acham muito! Isso é tudo complexo de cavaleiro encantado?

Nas histórias que Maali contava para os pequenos em Nivaria, havia a constante presença de um cavaleiro — uma figura lendária, poderosa, capaz de cativar atenção e corações e de proteger pessoas. Yan gostava daqueles, Shu já tinha entendido. Mas também achava que era por ele gostar que tantas das histórias de Maali casavam de ter aquela mesma presença. 

— Um dia, eu vou perder a paciência com essa maldita lagartixa do vórtex — Oz rosnou. 

— Shu, seja legal — Yan pediu, segurando o riso. E então pousou um dos biscoitos ao alcance da patinha do lagarto. Ao seu lado, Oz tinha o rosto retorcido em uma careta contrariada tão enfática que chegava a ser engraçada. — Assim quase parece que você queria que eu tivesse chorado, Oz. Bobo. 

Se aproximou, pousando sobre o ombro do farkasiano um beijo suave, antes de deitar a testa nele. 

Shu revirou os olhos, carregando seu biscoito até o outro canto da mesa, onde podia se deitar sob o pano que cobria um cesto de pães. 

— Como foi a mudança da sua família? Acha que sua mãe vai gostar de Farkas? Ou tem chance de ela… de vocês voltarem para Nivaria? 

Yan ergueu a cabeça, apoiando sobre o ombro de Oz o queixo quando enlaçou o braço dele com os seus. 

— Independente da minha mãe, poucas coisas me fariam voltar pra Nivaria com vocês aqui. Foi pra isso que eu vim, sabia? 

— Achei que fosse por conta do emprego irrecusável — Maali comentou. Ainda em pé no meio da cozinha, ele coçou o queixo, deslocado. 

Aquela era sua maior dificuldade: saber como se encaixar no que parecia não incluí-lo. Ele pigarreou ao notar os olhos de Yan sobre si, então os desviou, arredio. 

— Maali, você pode fazer o favor de sentar no espaço que deixei pra você aqui do meu lado? Ou vou começar a pensar que você acha que eu mordo — Yan provocou e o espaço vazio no longo banco de madeira foi finalmente tomado pelo peso do ex-monge.

O curandeiro se virou no banco, a cabeça recostada contra o peito de Oz, a cauda envolta ao redor dele como um cinto felpudo. Mas os olhos, naquele instante, pertenciam a Maali. Por baixo dos óculos de lentes grossas, Yan tinha para ele seu olhar de ouro líquido — era dedicado, fixo, decorado por um sorriso calmo nos cantos dos lábios.

Tomou para si a mão de Maali e a trouxe para perto do rosto até poder beijar seus dedos.

— Você é mais bobo ainda.

— Por quê? — Maali rebateu, aproveitando a proximidade para tocar o rosto de Yan com as costas dos dedos longos, calejados pelos antigos treinamentos na Cidadela. 

Yan não se importava se os nós de seus dedos eram ásperos. Gostava do contraste curioso entre a mão de Maali, longa e fina, com a aspereza rígida da disciplina de treinamento, e a de Oz, grande e larga, os dedos fortes de pele macia marcada apenas por calos nas juntas externas — das brigas que comprava na rua, sem qualquer disciplina. 

Os dois se completavam como um casal perfeito, eram como o sol e a lua das antigas histórias que ouvia sobre o céu de lugares distantes, fora das dependências do vórtex. O sol, quente e reconfortante, que queimava devagar, e a lua, confortável e contemplativa. Yan se colocaria como as nuvens, capaz de transitar entre os dois com facilidade. Poderia se habituar a um ou ao outro. Ou aos dois, como seu coração pedia. A ambos, porque nunca seria capaz de ranqueá-los em seus sentimentos. 

Aquele era seu lado mais bobo. Não capaz de fazê-lo chorar, como na historinha exagerada de Shu, mas certamente apto a pressionar seu peito. Yan considerou, enquanto acariciava as mãos dos dois com as suas, que havia muito pouco que não faria para lutar por seu lugar entre eles. 

— A gente podia ir dar uma volta — sugeriu, espiando a noite pela janela da cozinha. Farkas caía mais e mais em um silêncio tranquilo. Não era uma noite de festa, o que era melhor ainda. 

— Não está meio tarde? — Maali perguntou, espiando pela mesma janela. O sorriso trocista de Oz não tardou a aparecer. 

— Se você tem hora pra estar na cama, pode ir, raposo. Eu e Yan te contamos sobre o passeio amanhã no café. 

— Não — protestou, tão logo Oz tinha acabado de provocá-lo. — É claro que eu vou junto. Do jeito que você é, é capaz de fazer Yan se perder mesmo do lado da sua casa, seu sem noção.


Shu havia decidido ficar na cozinha. Alguém precisava avaliar a qualidade daqueles pães frescos que seriam servidos ao estimadíssimo líder. E também, ele fizera questão de adicionar, preferia cochilar enrolado em um daqueles tecidos com cheiro de assados ainda mornos a assistir por mais tempo a interação entre os três. 

Não tiveram problema em se esgueirar para fora do Hall, mesmo àquela hora. Oz havia encarado os guardas no portão tão enfaticamente que Yan acreditou que mesmo se alguém os questionasse, seriam capazes de dizer que nada tinham visto. Maali concordaria, com decepção. Nunca seria capaz de confiar plenamente em uma guarda tão molenga quanto aquela de Farkas. 

Ali fora, a rua estava mergulhada em marasmo. As imediações do Hall, geralmente tão movimentadas, pareciam vazias no escuro, como em uma cidade fantasma. Para Maali, aquele ritmo tornava Farkas mais habitável. Era habituado a Nivaria, uma Cidade pacata, que só se acendia de luzes e barulhos nas noites de celebração. 

Farkas era quase uma antítese. Durante o dia, músicos de rua se espremiam pelas passagens de pessoas junto com pequenos vendedores ambulantes, empenhados em atrair para si um pouco da atenção de um povo conhecido pela ostentação. 

Farkasianos tinham dinheiro, principalmente se comparados à grande maioria da população de Cidades menos habitadas, como Nivaria e seu sistema cooperativo, ou o Deserto e as longas distâncias inabitadas de seu território. Era por isso que ver aquela Cidade mergulhada no escuro era tão peculiar. Tanto Maali quanto Yan acreditavam que seriam forçados a conviver com uma Cidade que não dormia. Vê-la adormecida enquanto caminhavam tinha uma aura reconfortante. 

Talvez Farkas não fosse assim um lugar tão difícil quanto parecia na própria imagem que os farkasianos barulhentos faziam questão de tentar passar. 

— Eu não achei que essa praça ficava assim vazia. Como é grande! — Yan comentou, acelerando o passo até o meio da praça central, contemplando o alto telhado do palco erguido bem no centro do espaço. — Oz, pra que serve essa estrutura? É algo para comunicações importantes? Ou… apresentações culturais, talvez?

— Pros dois — respondeu Oz com um suspiro, então coçou a sobrancelha. — Mas foi construído por um motivo bem menos nobre. Meu pai… Meu pai gosta de parecer maior do que os outros. Em Nivaria, ele chamava atenção pela estatura. Vivia se gabando disso. Mas, aqui em Farkas…

— Ele não passa de um homem medíocre — Maali completou sem pensar. Então engasgou quando notou o olhar de Oz sobre si. — Em estatura, eu digo. 

Achou que teria deixado Oz irritado com o comentário, mas ele riu, então Maali pôde relaxar os ombros novamente. 

— Quando você for o líder, pode transformar isso no que quiser. Há uma infinidade de possibilidades — Maali sugeriu, erguendo os dedos para enumerá-las. — Pode direcioná-lo para cerimônias de memória dos que já foram, para honrar sua Grande Loba, em um espaço para apresentações das crianças ou até mesmo em um palco aberto. Desculpe me meter — se corrigiu, desconcertado com a atenção de Oz e Yan sobre suas palavras —, mas não te vejo como o tipo de líder que precisaria se sentir tão superior. 

— Nem eu — Yan concordou. E voltou a se aproximar, enganchando o braço de Oz com o seu. 

— Não é o tipo de líder que eu quero ser — respondeu Oz sem voz. 

Mas aquela era mesmo uma escolha que podia tomar? 

Em seu tempo em Nivaria, tinha se surpreendido com o aprendizado sobre liderança cooperativa, mas os farkasianos não eram como Nivaria. Se agisse como desejava, seria ao menos levado a sério? Depois do pulso firme imposto pela liderança de Ravi, que chance teria um líder que não se pautasse pelo medo?

Oz deve ter notado a expressão preocupada nos rostos dos outros dois, porque logo em seguida, fez questão de mudar o clima do passeio. Com um movimento rápido, envolveu Yan pela cintura, jogando-o sobre o ombro enquanto a risada tomava conta do seu rosto. 

— Ou a gente pode colocar você no palco pras pessoas conseguirem te ver mesmo você sendo um ratinho! 

— Isso não foi nada cavalheiro da sua parte, sr. Farkas! — Yan protestou, segurando o riso. — Maali, faz alguma coisa! 

Aquilo pareceu ligar um novo instinto em Oz. Ele segurou suas pernas com mais firmeza quando se afastou de Maali com alguns passos para trás. A raposa tinha uma das sobrancelhas arqueada em desafio. O único detalhe separando-o de seu modo de batalha era a sombra de um sorriso divertido no canto de sua boca. 

— Oz, coloca ele no chão antes que vocês dois caiam — ele pediu, adiantando-se um passo com as mãos para trás.

Sorrateiro, mas não discreto. 

— Sai pra lá, raposo. A gente só vai cair se você for sem noção de tentar derrubar a gente… Mas você nem tem força pra isso nesses bracinhos aí.

— Como é que é?

Yan se segurou nas costas das vestes de Oz. O gritinho de susto foi meio cortado pela risada quando Oz disparou correndo, carregando-o sobre o ombro como se não pesasse absolutamente nada. 

— Oz! — Yan protestou, sem conseguir parar de rir. — Eu vou cair assim!

— Por Niva! Você não tem noção alguma! — ralhou Maali logo atrás. Seu tom sério de reprimenda seria mais convincente se não tivesse começado a perseguir Oz logo depois. 

Com Yan rindo sobre o ombro, Oz contornou a estrutura elevada do palco, flanqueou para um lado, então para o outro, vendo Maali copiar seus movimentos do outro lado da construção. 

— Isso é ridículo. Oz! — ele chamou, e Oz parou de se mover, só para recomeçar a corrida assim que Maali se convenceu de que poderia chegar até ele se atravessasse por cima do palco. — Oz!

Ele riu, correndo para a lateral da praça. 

Não era ágil como Maali. Carregando alguém sobre o ombro, menos ainda. Conseguiu correr até os limites da praça, até um canteiro sob a copa de uma árvore que dividia a área descampada da rua principal. Foi lá que Maali o alcançou com um tranco de corpo. 

Oz arfou, então perdeu o equilíbrio e caiu no chão. Yan deu um gritinho quando Oz soltou suas pernas e ele próprio caiu de costas sobre um amontoado fofo de grama que lotou seus cabelos. 

— Pelo amor dos Imortais! Era pra você ser mais firme, farkasiano! — exclamou Maali, desesperado, indo checar Yan caído entre as plantas. 

E o encontrou rindo com os cabelos e as orelhas tomados por grama e pequenas folhas, certamente reunidas naquele monte por algum funcionário no fim da tarde. 

— Se ele se machucou, foi culpa sua, raposo sem noção! — respondeu Oz enquanto se sentava no canteiro, batendo a terra das mãos. 

— Algum dia, eu ainda vou morrer por causa de vocês dois — Yan brincou, cobrindo o rosto quando ergueu o corpo. Bateu as mãos nas orelhas, tentando livrá-las de um pouco do acúmulo de grama. 

— Não diga isso — pediu Maali, quando lhe ofereceu a mão em uma gentileza séria. — Eu nunca machucaria você. 

Yan aceitou a mão, só para puxar Maali para o chão logo em seguida, usando todo o peso do corpo. 

— Pra você não esquecer que eu posso revidar — brincou, então plantou-lhe um beijo no canto da boca antes de chacoalhar os cabelos, derrubando uma chuva de pequenas folhinhas secas. 

Aquela era a primeira vez que tinha a boca de Yan tão perto da sua, Maali pensou na hora. Mas, se fosse honesto o bastante com suas memórias, se lembraria de que era a segunda. 


A primeira tinha sido há um bom tempo. Efervescente e sutil na mesma proporção, o que impulsionou Maali a enterrá-la na pilha de outras memórias de juventude às quais não devia ser tão apegado. 

Não era como se tivesse sido um beijo, aquela primeira. Tinha sido algo muito parecido com as cenas das velhas histórias de romance, bem pouco repetidas entre jovens criados para serem guerreiros. Ou monges.

Era noite e Maali era o mais velho do grupo de jovens nivarianos reunidos ao redor da fornalha para ouvir uma história. Tinha enchido o peito na ocasião, empenhado em contar a eles a mais impressionante sucessão de cenas épicas de batalhas pontilhadas do heroísmo que fazia os olhos dos mais novos brilharem. Então se levantou para voltar a rechear o prato de biscoitos, ignorando os clamores de alguns para que contasse uma história de romance. Um romance entre guerreiros. 

— Este contador de histórias não sabe nada sobre romance —, se lembra de ter dito, virado de costas enquanto empilhava biscoitos de uma forma ordenada, mesmo que fosse ser bagunçada logo depois, quando os mais novos a atacassem. 

Se lembrava de ouvir os passos de Yan atrás de si, então virou o corpo para lhe sussurrar algo sem importância. Não esperava que ele estivesse tão perto, espiando os biscoitos por cima do seu ombro. 

Qualquer outra criatura teria se assustado com a proximidade inesperada. Não Maali. O que o desconcertou mais foi a forma como seu nariz roçou o de Yan, os lábios passando tão perto dos dele que pôde sentir o calor do ar que saiu de sua boca em um suspiro surpreso. 

Pensou que Yan o xingaria — ainda que não pudesse imaginar a justificativa exata para isso. Em vez disso, o que recebeu foi um sorriso. 

— Você tem cheiro de biscoito — Yan sussurrou em uma brincadeira, o rosto levemente corado enquanto se afastava.


— Você tem cheiro de grama — sussurrou ainda caído por cima dele contra a pilha de folhas. 

Nos lábios, Maali trazia a sombra do sorriso salpicado de lembranças. E a resposta de Yan veio com uma sonora risada que ele logo ocultou contra as mãos. Para Maali, não ficou claro se ele ria por ter em mente a mesma memória, ou porque o acaso de seu comentário o tinha tomado de surpresa. 

— Isso não soa como um elogio — Yan respondeu, a mão encontrando a nuca de Maali por baixo da cachoeira de cabelos pretos. 

O toque o trouxe para baixo, gentil, mas constante, até que os lábios de Maali voltassem a tocar os de Yan, agora sem a desculpa do acaso ou de uma interrupção apressada pela timidez. 

Ao primeiro toque, Maali sentiu um choque suave contra a boca, como se Yan fosse protegido por uma camada elétrica que o punia por invadi-la. Teria afastado e se desculpado — mesmo sem saber pelo quê — se não encontrasse na boca de Yan um sorriso discreto que denunciava que ele também havia sentido a energia, e não se importava. 

— Foi mesmo uma cantada de merda.

A voz de Oz soou birrenta, ainda que baixa. Yan interrompeu o beijo com um carinho suave e virou o rosto para encontrá-lo sentado na grama a alguns palmos de distância, os braços cruzados e o olhar voltado para a casca da árvore mais próxima — possivelmente o primeiro objeto que encontrou no campo de visão. 

Ele parecia incomodado. Não como alguém que tinha saído com amigos só para descobrir que ficaria de vela; e também não como alguém que tinha acabado de ver seu noivo beijar outra pessoa. Oz parecia incomodado como uma pessoa que se corroía de ciúme em silêncio, como se tivesse sido deixado de fora de algo que esperava fazer parte.

— Você tem uma melhor? — Maali perguntou, direcionando-lhe um olhar de desafio. 

— Eu tenho. — A resposta veio de Yan, rápida e sutil, antes mesmo que Oz tivesse terminado de virar o rosto de volta. — Por que você tá tão longe da gente?

A pergunta não pareceu inesperada para ninguém além de Oz. As sobrancelhas erguidas do farkasiano e sua boca levemente aberta contrastavam com o sorriso gentil de Yan e o de Maali — não tão gentil e mais afiado. 

Oz ainda parecia reticente quando se aproximou, rolando o corpo pela grama numa bobeira que tirou de Yan um sorriso solto. Quando chegou até eles, os cachos que se projetaram sobre o rosto de Yan também estavam decorados por folhinhas de grama. Yan deixou que seu dedo se enrolasse em uma das mechas, e tirou dela uma folha mais verdinha, deixando-a cair sobre a relva que os cercava. 

— Vocês dois brutos vão me tirar desse bolo de grama, né? Por acaso eu tenho cara de lagarto? — ele brincou, o sorriso que se formava sendo logo desmanchado quando Oz o puxou para um beijo e mordeu sua boca. 

O beijo dele não era delicado, mas firme. Com a mão do farkasiano enroscada nos cabelos, Yan arranhou-lhe o peito em resposta. 

Gostava de como Maali o tratava com seriedade e respeito na mesma proporção com a qual Oz parecia pronto para desrespeitá-lo se ele pedisse. Yan pensou que nunca seria capaz de escolher entre eles, nem se tentasse. 

Ainda com as unhas apoiadas contra o peito de Oz, guiou a outra mão de volta para o cabelo de Maali num afago carinhoso e sentiu quando ele a beijou em resposta. O coração de Yan, sempre tomado pela tranquilidade dos treinamentos médicos, acelerou algumas batidas. O calor que lhe descia o corpo era o bastante para saber na ponta da língua a resposta para o que sentia. 

Gostava de ambos. Queria os dois. 

Não separados, como uma competição ou um triângulo, mas juntos, como partes igualmente curvas de uma aliança. Deixaria que seu coração astuto se curvasse por completo se pudesse pertencer aos dois. 

Encerrou o beijo com um toque leve do nariz na bochecha de Oz que o fez rir. Gostava, além de tudo que havia acabado de pensar, de como um homem do tamanho de Oz, forjado nos moldes inflexíveis e ambiciosos de Farkas, ainda guardava em si a doçura daquele riso. Era bom estar por perto, assim poderia protegê-lo da forma rígida que Ravi construía para ele. 

— Viu, ô, raposo! Você tava errado mesmo! — Oz entoou assim que o contato com Yan se rompeu. O sorriso de canto fazia brotar a covinha em uma única bochecha. — O Yan tem um cheiro muito melhor do que grama, mesmo com o cabelo cheio dela. 

— Ao contrário de você.

O tom de Maali era sério. Oz recolheu de volta o sorriso. Pela ruguinha de preocupação entre seus olhos, parecia pronto para se justificar por algo: o comentário, ou o beijo; ou até mesmo por não ter segurado Yan direito e causado a queda que originou tudo aquilo — mesmo que ainda fosse capaz de bater o pé e jurar que aquilo não tinha sido sua culpa. 

Nem teve tempo de abrir a boca antes de ser atingido na orelha pela lufada de folhas secas que Maali atirou em sua direção. 

— Ah…! — protestou sem palavras, os cachos se enchendo de pequenas folhas. 

Apertou os olhos e então recebeu o tranco que o jogou para o lado, derrubando-o de costas no chão antes que pudesse se defender. 

Uma briga, pensou. E mostrou os dentes em um rosnado silencioso pronto para revidar. 

O peso do corpo de Maali sobre suas coxas foi distração o suficiente de qualquer plano de guerra. Quando ele se inclinou, seus longos cabelos tocaram Oz antes que suas palavras fossem ouvidas: 

— Você moscou. 

Pelo tom baixo e confiante pontuado pelo sorriso, era impossível deduzir que Maali nem mesmo compreendia por completo o significado da expressão que tinha acabado de usar. Replicava ela de conversas que tinha ouvido por Farkas, como se tivessem feito parte do seu vocabulário de toda a vida, até pouco tempo atrás, quase inteiramente oficial.

Oz demorou a reagir, então o sorriso voltou quase tão subitamente quanto havia sumido. Os cabelos de Maali, ainda intactos da guerra de folhas, se amassaram sob o toque pesado da mão do farkasiano quando ele o trouxe para um beijo.

Recebeu de Oz a mordida no lábio e a revidou, tirando dele um resmungo de dor. 

— Pega leve, canibal — Oz sussurrou. Não parecia incomodado, mas entretido. — Nesse ritmo, a gente termina o rolê parecendo que se pegou no soco. 

— Tá com medo? Achei que meus bracinhos eram fracos.  

— Pelos Imortais, você ainda tá pensando nisso? — Oz protestou, a voz projetando um tom forte de tédio forçado. Enlaçou a cintura de Maali com o braço e o rolou para o lado, derrubando-o na relva baixa. — Você não precisa da minha palavra pra saber que é forte, raposo. Você e o Yan são fortes pra caralho.

— Agora nem eu sei se você está elogiando ou brincando com ele, Oz — Yan segurou o riso e desceu o olhar para os próprios bracinhos sem força física. 

Maali achou que ele os chamaria para voltarem, mas Yan só voltou para perto, se deitando na relva ao seu lado com a cabeça apoiada na curva de seu ombro. Ele se esticou, alcançando a bochecha de Maali com um beijo suave que o fez corar e rir, sem jeito. 

A cauda de Maali se agitou ao lado do corpo, então ele a ergueu, jogando-a por cima do corpo de Oz e apertando-o com ela.

A mão do farkasiano foi de encontro a ela, alisando seus pelos escuros em um carinho pesado. Maali o espiou pelo canto dos olhos. Aquilo era novo e confortável, como tinha sido a mão de Yan nos seus cabelos. Seu treinamento como monge nivariano tinha feito de Maali uma pessoa pouco habituada a toques, mas pelos Imortais, pensava naquele instante, aqueles eram toques pelos quais abdicaria de muito.

— Então, nós três? — Oz perguntou.

— É o que parece — respondeu Maali, o calor dos dois cercando-o da certeza de que não estava sozinho.

E até mesmo o céu do vórtex parecia menos intimidador daquela forma. 

Continua…

No próximo capítulo… Oficialização de noivado político vira manchete de tabloide farkasiano! Ou quase isso…

O Capítulo 38  — Uma única flecha certeira chega em 28 de março de 2025

Sim! Capítulo semana que vem de novo! Ando muito bonzinho… ou seria ansioso pra postar mais? Nunca saberão. Mês que vem, voltamos com a Bunny Hour. Até lá, aproveitem a leitura!

Ei, vizinho! Não esquece de me acompanhar nas outras redes! 💫

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