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💫 Pontes Imortais ― Capítulo 36
Como um só
Sexta-feira especial! Esta semana, comemoramos o aniversário da equipe médica de Pontes Imortais: o Tomás / Yan! O aniversário dele foi no dia 13/03! Feliz aniversário para o divo das ervas, da ressurreição e das patadas! No fim do capítulo, tem arte especial de aniversário dele!
No último capítulo… Oz, Maali e Yan chegaram a Farkas com a mudança. O clima quente deixou Yan bem baqueado e ele acabou indo passar algum tempo na casa da família, com Nyan e a mãe, para ajudá-los com a mudança e a adaptação! E o que será que os dois tontos ficaram fazendo sem ele por perto?
Música-tema do capítulo: Orbit, de The 8 feat. JinJiBeWater_隼 (sigam a playlist oficial Pontes Imortais #2 no Spotify!)

Capítulo 36 — Como um só

Nivaria, onze meses antes da queda da Cidade
— É a terceira vez que paramos aqui nesta semana! — Maali resmungou.
Oz daria mais crédito às reclamações dele se as últimas semanas não tivessem sido uma escola. À medida que se aclimatava à vida no Hall da Conflagração, Maali parecia mais afeito aos pequenos sorrisos e aos grandes gestos de rebeldia, como se o calor pegajoso de Farkas, que ainda fazia a pressão do nivariano oscilar perigosamente, também fosse o habitat ideal para desenvolver as sementes da insubordinação.
Maali sequer mantinha aquela postura presunçosa de outrora. Em vez disso, estava largado no chão frio da Casa de Repouso, os cabelos caleidocosmicamente bagunçados.
— Quero te lembrar que desta vez a culpa é sua, raposo! — Oz respondeu, erguendo as sobrancelhas grossas, debochado.
— A culpa é sua por ter dito que eu não conseguiria pegar aqueles bolinhos de carne — o nivariano rebateu, apontando um dedo acusatório na direção de Oz. Estava sorrindo daquele jeito que Oz tinha aprendido a admirar, com os olhinhos quase fechando e as orelhas de raposa relaxadas.
Poucas horas atrás, enquanto caminhavam pelos pavilhões do Hall, pajeados por um séquito de discípulos farkasianos, o vento carregando o cheiro de carne assada com canela deixou ambos salivando.
— O líder Farkas pediu à tia Geni que dobrasse a quantidade de comida hoje — um dos discípulos segredou aos dois no tom com que se conta as melhores fofocas. — Acho que vamos ter uma comemoração.
— Ele partiu há algum tempo — outro discípulo se apressou em falar, querendo ser o primeiro a inteirar o jovem mestre das notícias — em direção ao distrito do Lavradio. Jovem Mestre, parece que finalmente encontraram o Colosso.
A menção do epíteto puxou um silêncio incômodo que fez Maali agitar a cauda.
— O que é isso? — ele questionou, olhando para Oz.
— Quem — Oz corrigiu. — Um sujeito que anda assombrando os distritos há bastante tempo. Provocou tanto caos pelo caminho, e fugiu tantas vezes das autoridades do Hall, que já alcançou um status de lenda.
— Dizem que ele é mais forte que vinte discípulos juntos. — Uma jovem discípula comentou, baixando a voz em seguida como se o que fosse dizer depois fosse algum tipo de sacrilégio: — Mais forte que o próprio líder Farkas.
Oz estalou a língua no céu da boca e riu, zombeteiro. Dizer em voz alta seria um escândalo, mas não achava seu pai tão forte assim. O próprio Ravi também tinha se colocado em status de lenda, aproveitando-se do disse-que-me-disse popular. Os farkasianos ganhavam em número, muito mais do que em força.
— A questão é que esse cara parecia impossível de capturar — Oz retomou a conversa com Maali. — E pelo menos três famílias foram dizimadas por ele, sabe-se lá por que razão. Quase parece que ele se diverte com a miséria alheia, ou coisa assim. Meu pai deve querer mesmo esfregar na cara de todos que conseguiu pegar o sujeito, afinal de contas.
E se Ravi não estava por perto, não precisavam se preocupar tanto com o que fariam, foi o que Oz pensou.
— Raposo, eu duvido que você consiga caçar alguns desses bolinhos de carne pra gente — zombou. Já tinha aprendido que as palavras “eu duvido que você consiga” tinham um efeito poderoso sobre Maali.
Claro: não tinham contado com Juno na equação. Nem que ela os pegaria com a boca na botija, tentando fugir das cozinhas enquanto uma Geni aos berros ameaçava os dois com um chinelo de madeira. Juno não pensou duas vezes em enviá-los mais uma vez para a Casa de Repouso. “Parece que você ficou mais desmiolado com esse rapaz ao lado”, ela havia dito pouco antes de se afastar, deixando a cargo de um guarda que os empurrasse para dentro daquele casebre dolorosamente entediante.
Os pais de Oz nutriam a esperança de que a rigorosa educação nivariana de Maali funcionasse como um remédio amargo e efetivo contra a rebeldia do filho. Com frequência, Oz era enviado para a Casa de Repouso — um pavilhão pequeno, construído nas cercanias do bosque sem nome que rodeava a capital farkasiana, longe o bastante do Hall para que não fosse nada além de enfadonho e cercado de magia de tal forma que, uma vez lá dentro, só se poderia sair quando o encanto fosse retirado. Pensando bem, nada mais era do que uma versão pouco satisfatória das sessões de meditação nivariana a que submetiam os jovens indisciplinados. Oz começava a se dar conta que muito do que Ravi fazia em Farkas eram variantes capengas do que tinha visto em outra Cidade.
— Sabe, a disciplina em Nivaria funcionava porque ficava ecoando na cabeça da gente o dia todo — Oz refletiu em voz alta. Maali o encarou, curioso, esperando que o farkasiano chegasse a alguma conclusão. — Quando eu fico sozinho aqui, a única coisa em que eu penso é que quero ir embora. Se fiz alguma coisa “errada” — ele fez aspas com os dedos — isso nem me passa pela cabeça porque tô fulo demais. Não que eu não estivesse em Nivaria, mas eu tava em movimento, pelo menos.
Não trancado feito um bicho, apartado do mundo do mesmo jeito que se faz com os doentes contagiosos.
— Está com saudade de Nivaria, Oz? — Maali provocou.
Era mesmo uma provocação, quando Oz o olhava daquela perspectiva. Maali tinha se deitado de lado, o rosto anguloso apoiado contra a mão. Balançava devagar o escuro rabo de raposa. A pontinha branca fez Oz pensar em Yan, cuja cauda branca era salpicada de preto no final. Como opostos complementares, duas faces de uma mesma realidade.
A bem da verdade, desde o episódio com o Fronteiriço, convencia-se cada vez mais que aquele nivariano poderia ser uma boa companhia. Nos momentos em que se lembrava da expressão indômita de que Maali se armou antes de derrubar aquele bicho, com as orelhas dobradas para trás e o rabo erguido feito uma seta, experimentava um calor gratificante que nascia bem na boca do estômago e se espalhava como formigas ao longo de seus braços.
O raposo negaria, mas Oz acreditava que ele se sentia de forma parecida. Juntos, pareciam alimentar um no outro uma ânsia pela vida até então inédita.
— Se a gente tirar da equação o frio, o Mestre Inua falando com a velocidade de uma tartaruga anciã e aquela sopa rala do desjejum… — Oz cutucou de volta.
— A sopa fica bem gostosa com pimenta rosa, não é culpa nossa se essa sua língua farkasiana é fraca!
Oz fez menção de ir para cima de Maali, que mostrou os caninos em retorno. Do lado de fora, Nix arranhou a porta de madeira, como se pedisse para que ficassem quietos. Não deixavam que a loba ficasse lá dentro com os dois durante as detenções, mas Nix não os abandonava. Deitava-se na varanda da Casa de Repouso, esperando até que as longas horas de castigo finalmente terminassem.
— Você percebeu — Oz voltou a falar depois de um curto tempo em silêncio — que a única coisa que conseguiu defender foi a sopa?
E Maali, que já tinha começado a rir quando concluiu que era fisiologicamente impossível para Oz ficar calado por mais que dez segundos, se entregou a uma gargalhada animada que fez Nix uivar, como se quisesse participar da festa.
Começava a anoitecer quando foram liberados. O discípulo trazia ordens diretas de Juno para que voltassem ao Hall e fossem diretamente para os respectivos quartos, onde o jantar seria servido. Uma extensão do castigo, mas com a cortesia de uma cama confortável. Tão logo saíram do campo de visão do discípulo, no entanto, Oz encarou Maali com um sorriso tentador desenhando covinhas em suas bochechas.
Foi assim que foram parar naquele bar.
Tinham se embrenhado por uma das ruas comerciais mais estreitas da capital farkasiana, cheia de adegas e pequenos botecos de cujas portas escapava uma mixórdia de cheiros que deixavam Maali com água na boca. Mesmo aquela ruela estava lotada. Conforme a noite chegava, os ânimos ficavam mais agitados em Farkas como se aquela gente realmente tivesse parentesco com os lobos e carregasse no peito algum tipo de chamado noturno.
Ao redor deles, artistas de rua brincavam com bolhas de sabão, ou com fogo. Matronas sentadas nas calçadas descascavam amendoins com seus dedos artríticos, lançando-os dentro de fogareiros portáteis para assá-los. Oz comprou um punhado deles, carregando-os dentro de um triângulo de papel. Vinham salpicados com açúcar e cominho. O sabor inusitado pegou Maali de surpresa, e ele se viu tomando os amendoins da mão de Oz para comê-los um atrás do outro.
— Vai com calma, raposo, vai te dar dor de barriga! — Oz alertou, rindo.
E havia aquele muquifo no fim da rua, tão pequeno e torto que bem poderia ser uma construção abandonada, não fossem as muitas mesas espalhadas pela calçada, todas lotadas. Aquela gente toda se moveu numa sincronia mística tão logo Oz se aproximou.
— Jovem Mestre! — alguém berrou.
— O Jovem Mestre voltou mesmo! — outra pessoa anunciou.
A placa acima do toldo dizia Cozinha da Lena e uma lousa posta ao lado da porta indicava os pratos do dia. Duas mãozinhas de cerâmica seguravam a moldura da lousa, mas no topo, onde provavelmente a cabeça de cerâmica de um cozinheiro já havia habitado, restava apenas um pedacinho quebrado da peça. Mais tarde, Maali descobriria que a Cozinha da Lena era carinhosamente referenciada como “lá no cozinheiro sem cabeça”.
Um punhado de mãos animadas arrastou Oz para dentro e Maali só não se perdeu porque ele tratou de segurá-lo pelo pulso e trazê-lo junto. Sua risada irreverente ocupou todo o espaço do lugar, fazendo Maali sorrir sem perceber. Lembrou-se de Yan comentando, antes de partir para ajudar com a mudança e ambientação da família, que gostava do quanto Oz era barulhento. “Ele também não te faz lembrar que o coração não é um campo estéril?”, Yan havia perguntado.
Sim, fazia.
— Vem cá, moleque! — uma mulher exigiu, e Maali logo descobriria que era Lena em pessoa.
Feito uma criança que aprontou, Oz se aproximou receoso. Não sem razão: tão logo ele chegou perto do balcão, Lena se inclinou para frente para puxar-lhe as orelhas como uma matrona faria a um filhote, arrancando dele uma sequência de ais.
— Andam falando por aí que você vai casar e nem pra vir me apresentar a pobre criatura assim que coloca os pés de volta por essas bandas — ela censurou para em seguida encarar Maali preso à mão de Oz. — Como você conquistou essa coisinha linda? Meu bem, se estiver aqui contra a própria vontade, pisque duas vezes que eu vou te ajudar.
— Ei, velha maluca! — Oz resmungou, esfregando as orelhas pontudinhas, que ficaram vermelhas. — Porque cê não pergunta como ele me conquistou, hein?
— Porque é bem óbvio qual de nós dois tirou a sorte grande.
Maali respondeu com tamanha seriedade que Oz precisou de um momento para capturar aquele detalhe: o brilho vulpino nos olhos dele e o jeito discreto como a cauda felpuda de Maali riscou o ar, agitada. Era uma piada tão óbvia que o resto do bar já estava aos risos antes mesmo de Oz se dar conta da graça.
— Tá ficando linguarudo né, raposo — cutucou, trazendo-o para junto do balcão. — Lena, esse é o raposo.
— Maali — ele corrigiu, cumprimentando a mulher com um menear de cabeça. — Muito prazer, Madame.
— Pode guardar a formalidade pra gente fresca do Hall — Lena cortou, risonha. — Chamando de Lena já serve. Oz, essa coisinha bonita vai derreter de calor! Aqui, meu bem.
O bar era minúsculo. Com tanta gente em volta dos dois, Maali poderia jurar que a temperatura tinha subido uns dois graus. Aceitou de bom grado o copo de água que Lena lhe ofereceu, e seus olhos se encheram de assombro depois do primeiro gole.
— O que é isso? — questionou. Nunca tinha experimentado nada tão refrescante em toda sua vida, e sentia o frescor voltar a fluir por seu corpo. Mais parecia que fadinhas invisíveis sopravam sua pele suada, espantando o calor.
— Água de coco, bem — Lena piscou um olho, charmosa. — Cortesia do Deserto. Leva o menino pra pegar um ventinho, Oz. Tenha compaixão!
Munido de uma caneca de vinho de cevada, Oz passou o braço pelos ombros de Maali, conduzindo-o pela multidão animada que tinha começado a cantar, estimulada pela presença do jovem mestre. O gesto foi tão natural e íntimo que Maali só se deu conta dele quando já estavam ambos na calçada observando a turba que crescia conforme a escuridão do céu ficava mais sólida.
— Sabia que o céu em outros mundos não é tão escuro quanto o nosso? — Maali contou. Falava baixo, forçando Oz a se aproximar um pouco mais. — Estrelas. Chamam de estrelas. E tem outra coisa também. Lua, é esse o nome. Foi Niva em pessoa quem contou aos primeiros monges da Cidadela.
— Ou talvez os monges só tenham se embebedado com licor de figo e sonhado com essas coisas — Oz sugeriu, dando risada, mas tão logo Maali começou a se fechar em copas, o farkasiano o tocou no braço, estimulando-o com o sorriso. — É brincadeira, raposo. O que são? Essas estrelas e a tal lua, de que são feitas?
— Eu não sei — o rapaz confessou, bebericando a água de coco, que provava devagar pois não queria que acabasse logo. — Mas brilham. Brilham bastante, um monte de vaga-lumes grudados no céu, e a lua ao lado feito uma bola de fogo.
— Deve ser difícil pegar no sono com um céu brilhando assim — Oz ponderou, incomodado. O pensamento tomou um rumo diferente pouco depois, quando acrescentou: — Mas seria como viver a Festa de Luzes todos os dias!
Ele sorriu, as covinhas marcando seu rosto tão profundamente que Maali sentiu vontade de congelar aquela imagem. O coração fez um rodopio esdrúxulo em seu peito. Aquela faísca de sentimento não era inédita para Maali. A novidade era que o culpado fosse Oz.
Tinha uma resposta para tanta doçura, mas um estouro alto calou seus pensamentos. As pessoas ao redor se abaixaram, dando gritos surpresos e Nix, que tinha ficado do lado de fora, agarrada a um bojudo pedaço de osso providenciado por Lena, ergueu a cabeça, atenta. Aquela gente toda se moveu numa sincronia mística, abrindo espaço para o que quer que viesse no começo da rua.
O segundo estouro foi mais próximo, acompanhado de um grunhido gutural, fantasmagórico. Maali reconheceu o barulho como o de uma arma de fogo — os farkasianos eram mesmo conhecidos por suas barulhentas armas munidas de pólvora —, mas aquele grito nada tinha de dor. Mais parecia desdém, o som de alguém escarnecendo a plenos pulmões.
— Movam-se! Saiam da frente!
Oz reconheceu o uniforme dos guardas farkasianos, mas o que realmente chamou sua atenção foi a criatura correndo na frente deles. Os ombros largos estavam queimados do sol e suas roupas eram uma ruína, marcadas por nódoas gordas e marrons que lembravam sangue seco. O pior era aquela coisa em seu rosto: uma máscara de ferro escuro cobrindo-lhe toda a cabeça, deixando de fora a cabeleira cacheada e desgrenhada. Os estreitos buracos para os olhos acrescentavam ao olhar daquela criatura um brilho violento.
A máscara de ferro era uma das piores condenações farkasianas, por seu peso de desonra: quem a usava era um pária e nunca mais voltaria a circular em sociedade. Ravi guardava aquela condenação para os crimes mais grotescos, orgulhoso do fato de que na história de Farkas poucas foram as pessoas que mereceram usá-la. O temor aos lobos era uma arma poderosa.
Oz interceptou o caminho daquela criatura, pronto para servir de muralha. A pessoa guinou para o lado no último instante, na tentativa de escapar por um ponto cego, mas Maali estava postado ali, com Nix servindo-lhe de guarda-costas. Havia pouco que pudesse fazer, com os pulsos presos em grilhões pesados, mas o homem gritou e riu ao ser laçado por um dos guardas, a corrente mágica o envolvendo pelo pescoço. Ofereceu resistência até o último minuto, e foi preciso que Oz se unisse aos guardas para puxar a corrente e enfim fazer o homem desabar de costas.
Ele ria. Isso, mais do que qualquer coisa, foi o que assustou Maali. Aquele homem intercalava risadas e gritos, um depois do outro. Parecia uma máquina quebrada, presa para sempre ao último movimento que tinha realizado.
A bebedeira e a animação da rua tinham dado espaço para um silêncio consistente. Aguardavam paralisados pela cena seguinte. Foi essa bolha de reticência que Ravi arrebentou quando finalmente se aproximou, olhando o homem mascarado no chão e então percebendo Maali e Oz logo adiante.
— Pensei que sua mãe tinha dado ordens para que voltassem ao quarto assim que saíssem do castigo — comentou, ignorando a gravidade do momento como se não se tratasse de nada além de um espetáculo medíocre. Parecia mais interessado em Maali, como se de súbito tivesse se dado conta de que ele seria anunciado como noivo de Oz em breve, mas não parecesse assim tão útil aos objetivos de Ravi se era incapaz de fazer seu filho ser mais dócil. — Mais algumas horas na Casa de Repouso talvez ajudem vocês dois a tratar os mais velhos com respeito.
— Faria mais efeito se nos lembrassem o que precisamos respeitar — Maali devolveu.
Em qualquer outra ocasião, não agiria daquela forma com uma pessoa mais velha, ciente de que estava mesmo transgredindo uma ordem direta. Acontece que viu muito bem o jeito como Oz se encolheu assim que Ravi começou a falar, se apequenando diante do pai. E isso o irritou, tocando em partes de si recém-descobertas, sensíveis.
— Levem-nos para a Casa de Repouso — Ravi ordenou, fingindo ignorar aquele surto juvenil. Não perderia a compostura diante de tantas pessoas. — Orion e Silas — continuou, encarando dois guardas em particular —, quero vocês dois de olho nesse daí noite e dia depois que o enfiarem na prisão.
O olhar foi para o público e Ravi sorriu.
— O Colosso acaba de ser preso — avisou, temperando as palavras com a tranquilidade confiante que esperavam de um líder. — Provando mais uma vez a força do povo farkasiano sobre qualquer ameaça à nossa paz.
A mensagem se espalhou feito fogo em palha e logo se transformou em euforia, os sons da rua voltando todos de uma vez na forma de aplausos, assobios e do nome de Ravi sendo repetido em berros entusiasmados.
Ainda assim, a única coisa em que Maali conseguia prestar atenção era na risada do Colosso, mesmo enquanto era arrastado para dentro do carro que o conduziria à prisão.
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Não receberam nada além de um pedaço de pão e água fresca como jantar. As luzes da Casa de Repouso eram uma coisa mortiça, enlouquecedora depois de algumas horas. Maali compreendia porque aquele tipo de disciplina tinha tão pouco efeito sobre Oz, afinal. Lição alguma poderiam tirar dali exceto raiva e solidão.
— O que tá fazendo? — Oz questionou quando Maali, depois de dar algumas voltas entediadas pelo quarto, sentou-se na cama, atrás de si, e lentamente soltou-lhe os cabelos do rabo de cavalo.
— Acaba de me ocorrer que ainda te devo uma trança — Maali comentou, sentindo a textura macia dos cachos de Oz entre os dedos.
— Você sabe… que o meu pai me mataria por carregar assim o símbolo de força de outra nação, não sabe?
— Ele pareceu bastante inclinado em te vender como um herói em Nivaria — Maali contrapôs, pousando o queixo no ombro de Oz. Uma de suas orelhas tocava a bochecha de Oz, fazendo-o rir um pouco.
— Porque eu era um farkasiano derrotando um monstro nivariano — Oz explicou, revirando os olhos. — Acontece que uma trança faria os farkasianos perceberem que em outras Cidades há gente tão forte quanto eu. Ou mais.
Aquela injustiça dolorida pesou no coração de Maali. Oz notou como ele se retesou e, cuidadoso, contornou-lhe os ombros, pousando a mão em sua cabeça. De longe, podiam ouvir o ronco das máquinas agrícolas que funcionavam noite e dia no cinturão verde que os distritos mais próximos da capital formavam. Tanta comida, tanta fartura. Tanta sorte.
— Oz… Tem mesmo tantas pessoas assim em Farkas? — Maali questionou. — Que justifique a quantidade de fazendas que vocês mantêm?
Oz negou.
— A maior parte é escoada, vendida para as outras Cidades.
— São só mais quatro Cidades — Maali insistiu. — Se você parar pra pensar que Banjora e Aruvi têm produções agrícolas independentes, não parece um exagero? Ou… Especulação?
— É especulação — Oz respondeu, mas a ênfase que deu ao que disse, e o desgosto óbvio, desmancharam seu sorriso.
Aquele era um assunto sobre o qual pensava com frequência e externalizava bem pouco. Ravi o repreendeu tantas vezes quando puxou o tema que tinha desistido de falar.
— Meu pai estimula as fazendas locais a inflarem suas produções — ele continuou. — Banjora é próspera, mas depende do humor de Silki. Aruvi vive fechada atrás dos próprios muros, sem dar qualquer certeza de quando vai solicitar parte da produção de Farkas, e o Deserto não tem produção alguma.
— Como Nivaria — Maali acrescentou, pensativo. — A diferença é que o povo do Deserto se conecta a mais de uma Cidade. Não é irônico pensar que vêm de Nivaria os equipamentos que usam nas fazendas farkasianas, mas nós não conseguimos fazer nascer um único broto de batata?
— Quem sabe — Oz começou em voz baixa — a gente não consegue pensar em uma forma de estabelecer plantações em Nivaria agora que as Cidades vão ficar mais próximas. Aposto que lá não é o único lugar com gente inteligente o bastante pra achar uma solução.
— Aposto que não — Maali sussurrou de volta, seu timbre provocando um arrepio bem-vindo em Oz. — Me solta. Vira.
As ordens vieram com a tranquilidade de quem sabe que vai ser obedecido, o que Oz achou divertido. Maali separou uma mecha de seus cabelos mais próxima da nuca e começou a trançá-la.
— Raposo… — Oz advertiu, preocupado.
— Eu desmancho depois — Maali prometeu. — Mas você matou um Fronteiriço, como um caçador nivariano faria. Nós marcamos nossa história no corpo: as coisas que nos protegem, as que nos machucam e as que nos fazem mais fortes. É um problema de Ravi se ele não reconhece a força nivariana, mas se você vai casar comigo…
— Sei que vocês são fortes, raposo — Oz interrompeu, a mão indo para trás para apertar o joelho de Maali em uma brincadeira. — É comigo que você vai se casar, e eu reconheço isso. Se preocupe menos com o que o meu pai acha. E tente respondê-lo menos, também.
— Não se ele for um incômodo pra você — Maali rebateu.
E Oz, que não era acostumado a ser defendido assim e não sabia o jeito certo de reagir, jogou o corpo para trás, fazendo peso sobre Maali até que ele ameaçasse arrancar sua orelha com os dentes.
— Cadê sua força, raposo? — O farkasiano girou, apoiando um cotovelo na cama, metade do corpo ainda pesando sobre Maali. — Hm?
Estavam muito próximos. O cheiro de Maali continuava igual, aquele odor afiado que Oz tinha aprendido a associar à neve fresca pela manhã. Complementava o seu próprio, amadeirado e quente. Faltava apenas o toque de ervas que era o perfume de Yan.
Oz deixou que Maali contornasse seu rosto com os dedos finos. O coração dele batia acelerado contra o seu peito. Bem poderia estar batendo de encontro ao seu próprio coração, os dois de súbito desejando se tornar um só. Um coração maior, não só Farkas ou Nivaria, mas uma mistura das duas Cidades.
Mal se deu conta de quando chegou mais perto, passando o nariz pelo pescoço de Maali para sentir seu perfume. A pele dele arrepiou de um jeito tão gostoso que Oz precisou experimentar, pousando sobre ela um beijo suave.
— Depois — Maali sussurrou, afastando-o devagar. Colocou um cacho de Oz atrás da orelha e sorriu.
Depois. Como uma promessa. Como uma certeza. E como a memória de uma ausência que precisavam preencher antes de dar qualquer passo adiante.
Depois. Quando Yan voltasse.

Continua…
No próximo capítulo… O retorno de Yan coloca as coisas no lugar!
O Capítulo 37 — Então, nós três? chega em 21 de março de 2025!
Fiquem com essa arte maravilhosa feita pela Midori (@midori_m42) em comemoração ao aniversário do nosso ratinho curandeiro Yan / Tomás!

Já conseguiu achar o Shu na imagem? Achei isso um charme!

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