💫 Pontes Imortais ― Capítulo 35

A Chegada

Capítulo quentinho na área pra curar a ressaca do Carnaval!

No último capítulo… Yan e Maali estão de mudança para Farkas e Oz vai finalmente voltar para casa! Quais vão ser as primeiras impressões de dois nivarianos na Cidade dos Lobos?

Música-tema do capítulo: Home Sweet Home, de G-Dragon (sigam a playlist oficial Pontes Imortais #2 no Spotify!)

Capítulo 35 — A Chegada

Nivaria, um ano antes da queda da Cidade

Era conhecimento básico para qualquer criança nivariana que o clima daquela Cidade era diferente de qualquer outro. 

No inverno, a neve era tanta que ocultava a relva, se acumulava nas escarpas pontudas de Espinha de Cristal e preservava corpos de animaizinhos que pereceram pelo frio, o que fazia a estação de degelo nivariana transformar os campos em ocasionais cemitérios de pequenos animais desafortunados. 

Também era pontuado aos mais jovens que quisessem se aventurar através da ponte que o primeiro destino ao qual chegariam era Farkas, uma subida íngreme até uma das cidades mais distantes do vórtex. Era desaconselhado a qualquer um que fizesse o percurso a pé. Aos que necessitassem, Nivaria poderia fornecer veículos preparados para lidar não só com o percurso, mas com o calor úmido que incidia sobre toda Farkas.

Mesmo todas as aulas não chegaram nem perto de preparar Yan e Maali para o que seria a travessia. A cada tanto da viagem, o frio parecia se dissipar no vazio, como se o calor tivesse sido sugado de Nivaria pela força do próprio vórtex. 

Seguindo o carro vinham duas montarias separadas pelo líder Tyr para ajudar no deslocamento de Maali e Yan dentro de Farkas. A primeira delas a passar mal começou a bambear quando estavam no último quarto da viagem. De dentro do veículo que os transportava, Yan se abanou com um leque de tecido banjoriano fornecido por Oz. Então abanou Maali, que secava exaustivamente o suor da testa. 

Aqueles animais eram resistentes, pensou. Se não fossem, teriam arriado por muito menos. 

— Vocês se acostumam — Oz garantiu com um sorriso, espiando o percurso pela janela da carruagem, então sentindo os cabelos da nuca arrepiarem com o molejo da ponte. Achou de bom tom fechar a cortina, por garantia. 

Podia ser habituado ao clima quente e hostil de Farkas, mas acreditava que nunca seria capaz de se acostumar a atravessar pontes sacolejantes. A que ligava sua terra a Nivaria parecia ser a pior delas.

Quando finalmente o veículo parou de sacolejar, anunciando o fim da viagem, Oz estava tonto. Teria sido o primeiro a desembarcar se Yan não tivesse tomado a frente e empurrado a porta para pisar logo no gramado quente de Farkas no fim de tarde. Ele se afastou alguns passos para se esconder entre as árvores, e então se abaixou para vomitar o pouco conteúdo do estômago. 

— Credo! Avisa antes — Shu resmungou do ombro dele, botando a língua pra fora como se fosse capaz de vomitar junto por puro nojo.

— Ah, você ficou doente? — Oz perguntou com tom de manha depois de segui-lo. 

— Não é doença, tonto. É aquela coisa balançando e o calor deste lugar.

Maali apareceu logo atrás dos dois. Ao lado da porta do carro que os trazia, um funcionário farkasiano aguardava com uma pequena jarra dourada de água gelada. Maali a surrupiou de suas mãos sem muita polidez, então bebeu um único gole longo antes de oferecer para um pálido Yan à sua frente. 

— Bebe. Vai ajudar.

Secou mais uma vez o suor antes de cruzar os braços e deixar o olhar passear pelo ambiente. 

Não só suas aulas não o haviam preparado para o calor farkasiano, mas também não se sentia pronto para o que via com os próprios olhos. 

Farkas não era apenas maior do que Nivaria. Era muito maior. Grande a perder de vista, com uma floresta protegendo seus segredos como se contornasse toda a Cidade. Entre as árvores, casinhas isoladas e pequenos vilarejos começavam a aparecer conforme as luzes que se acendiam com o cair da noite, como se o bosque fosse invadido por vagalumes gigantes. 

No miolo estava a área urbana de Farkas: um amontoado de construções e comércios recheado com o som de pessoas, uma praça espaçosa, casas altas e pontudas, muros. Ao redor, até onde seus olhos conseguiam abranger, via-se o bosque e então uma espécie de cinturão verde que Maali acabaria descobrindo se tratar das muitas fazendas farkasianas. 

Nada parecia tecnológico, e também nada parecia muito mágico, mas havia magia e tecnologia em pequenas partes iguais, nas luzes, nos sons, nos contornos. 

Farkas era uma cidade híbrida. Nem famosa por sua magia e nem reconhecida por seu conhecimento tecnológico, mas havia prosperado nas negociações e na força. Tinha tudo, incluindo muita gente. E um exército de lobos. 

Maali mal percebeu quando o nariz se franziu em desconforto. Seus líderes não viam que o perigo se escondia em cada pequeno detalhe daquele lugar? 

— O que foi? Não gosta do cheiro daqui também? — Oz perguntou, erguendo o rosto para o ar e o farejando como se esperasse encontrar algo pontual. — Não sinto nada.

— Não é o cheiro — Maali suspirou. E deu um soquinho no ombro de Oz antes de voltar a atenção para Yan, assim poderia ampará-lo caso ele precisasse. 

A maior parte da população que tinha se aglomerado ao redor da comitiva se concentrava no veículo da frente, de onde descia — sem nenhuma pressa — o casal de líderes de Farkas, que imediatamente recebeu um gelado copo de bebida decorado com pequenas folhas, as quais Ravi tirou com uma careta. Ainda que muitos olhares se estendessem para Oz, acompanhados de sorrisos, poucos chegavam até Maali e Yan. Os farkasianos pareciam pouco interessados em uma dupla de nivarianos acompanhando o filho de seu líder.

Mais atrás, de um dos automóveis menores, Jiao foi a primeira a pôr os pés para fora. Despida de qualquer adereço que remetesse a Nivaria, ela parecia apenas uma viajante, ou melhor, alguém que viajara para Nivaria a convite de Farkas e que retornava então de sua missão, já usando roupas frescas e de tecido frio que remetiam e muito a Aruvi. Maali estava certo de que aquela era justamente a imagem que a mãe de Yan desejava passar. 

Por trás dela, Nyan passou tímido, carregando nas mãos uma bolsa de viagem de couro grosseiro. Maali sorriu. Só com uma olhada conseguia reconhecer o trabalho de um dos velhos artesãos que moravam nos subúrbios de Nivaria. O velho Omar se gabava de produzir cada peça com couro da caça de cervos nas áreas permitidas da floresta e produzia uma infinidade de peças únicas vendidas nas feiras da Cidade. Aquela era da cor de uma bola de neve, com alças suavemente tingidas de azul, remetendo aos lagos congelados de Nivaria. 

Nyan também vestia um chapéu de abas largas feito de palha trançada. Sobre ele, por duas pequenas aberturas, suas orelhas de esquilo não só eram visíveis, como se destacavam. 

O sorriso de Maali voltou a se abrir. Se Jiao tentava com todas as forças se desatrelar já de cara a tudo que aludisse a Nivaria, seu filho era a própria personificação de um nivariano pisando os pés jovens e frios pela primeira vez em solo de terra quente. 

— Oz, tem uma pessoa ali que você não teve tempo de conhecer ainda. 

Maali se afastou alguns passos e esfregou novamente a testa, então prendeu o cabelo em um coque alto para tirar o calor dos ombros antes de voltar com Nyan. 

Com a bebida gelada nas mãos, Yan já tinha recuperado um pouco do rubor no rosto. 

— E quem é esse coleguinha? — Oz abriu um sorriso largo, acentuando as covinhas nas bochechas. — Acho que te vi lá em Nivaria. Na festa? 

— Na Festa de Luzes, sim — Nyan concordou, rindo com o rosto parcialmente escondido contra as costas da mão quando chegou mais pra perto de Yan de um jeito tímido, como se ele pudesse escondê-lo dos olhares de outras pessoas. 

— Yan, esse moleque tá achando que a gente é muralha? — Shu perguntou, ameaçando tão intensamente morder os dedos que Nyan havia pousado no ombro do irmão que obrigou o curandeiro a dar um passo para frente, repreendendo Shu com um peteleco.

— Esse é meu irmão, Nyan — Yan apresentou. — Nyan, cumprimente direito o herdeiro de Farkas. 

— Oz. E é um prazer conhecer qualquer pessoa da família do Yan. Não que você seja qualquer pessoa, quer dizer… Um irmão, puxa. Isso é bem mais do que qualquer pessoa. Mas é um prazer! 

Ele se enrolava a cada palavra. Com a mão estendida à frente do corpo e as palavras rápidas e animadas, Oz conseguia se tornar ainda mais adorável. Era como se ganhasse algumas camadas de fofura e perdesse em tamanho a cada sílaba. Um pouco mais e Yan estaria convencido de que poderia guardá-lo no próprio bolso, como um enfeitezinho adorável. 

A animação de Oz ao conhecer Nyan tinha dado cabo de mais um questionamento interno de Yan: Farkas havia usado até mesmo dos sonhos do seu irmão para convencê-lo a aceitar o trabalho, mas Oz não parecia ter a mais parca ideia de sua relação com Nyan. Tudo só levava Yan a crer que Oz não estava envolvido naquela oferta. Ou isso, ou ele era um tremendo ator, digno dos mais prestigiados palcos, como…

— E aquele diplomata da Ópera, por onde anda?

— Com sorte, nem desembarca em Farkas e só passa reto de volta pra terra dos doidos — Oz resmungou com uma careta, enquanto cruzava os braços em uma pose de birra. 

Yan se divertia com a ideia de ver artistas de Ópera. Ele tinha gostado de como eram todos tão diferentes e misteriosos, como se ocultassem um milhão de segredos sob adereços e máscaras requintadas.

O interesse de Yan aliado à gentileza de Maali com Kuí na noite da Festa de Luzes davam conta de deixar Oz deveras azedo quando o assunto era a Ópera. 

Ele negaria, entretanto, qualquer conexão com ciúme.

Como se ouvisse as birras internas do herdeiro de Farkas, Kuí passou pelo grupo, vindo de um dos carros mais pomposos, com seu habitual sorriso de canto de lábios e um cantil trespassado no corpo. 

— Ó, queridinho. Você me parece um tanto pálido — comentou ao pousar os olhos sobre Yan, que secava o suor da testa com a manga das vestes. — Não esqueça de se hidratar agora que resolveu se tornar farkasiano.

Oz revirou os olhos. Estava pronto para perguntar se o tão renomado Instrutor da Ópera não sabia reconhecer o jarro de água na mão de Yan, mas em uma olhada rápida, já o descobriu vazio. 

— Já que é tão gentil, por que não dá um gole dessa água aí na sua bolsinha? 

O cantil de Kuí se parecia bem pouco com uma bolsinha. Lembrava mais uma garrafa metalizada, cor de cobre, o brilho opaco pelo tempo como uma peça de coleção muito velha. 

Kuí levou instintivamente a mão até a tampa, tamborilando nela as pontas dos dedos. 

— Este tipo de água só causaria indigestão a uma criaturinha adorável. Recomendo que o anfitrião providencie água de qualidade para seus convidados. Acredito que um Farkas legítimo a encontraria mais facilmente do que um mero diplomata de passagem. 

— É, eu vou.

Oz mastigou as palavras com uma careta. Yan e Maali, ao seu lado, notaram como um dos caninos afiados aparecia pela fresta dos lábios. Maali não conseguiu interpretar de cara o que lhe chamou atenção na imagem. Para Yan, era mais um detalhe adorável.

Com um gesto, Oz os guiou através das pessoas, cortando pelo meio das dezenas de funcionários que descarregavam as carruagens e se preocupavam em receber de volta a comitiva farkasiana. Um aceno e um sorriso breve pareciam suficientes para que o herdeiro de Farkas desse cabo de qualquer perspectiva de conversa com pessoas importantes. 

Ele ainda era jovem e, devido ao modelo de liderança autoritária de Ravi, tinha bem pouco envolvimento prático com diplomacia. Isso era o bastante para que conseguisse se desvencilhar, a princípio, de perguntas acerca da viagem e das negociações com os nivarianos. Os farkasianos que se interessavam por isso estavam todos cercando Ravi. Maali fez questão de gravar alguns dos rostos que pareciam interessados demais.

O Hall da Conflagração tinha um nome imponente demais para o que era, na verdade: uma vila. Opulenta, larga, cercada de muros e adornada por um enorme portão e escadas monstruosas do lado de dentro, que podiam ser vistas como um gigantesco monumento de poder. 

Maali manteve o nariz torcido durante o percurso que os levava até os portões. Parados diante deles havia mais meia dúzia de funcionários de aparência séria, portando arpões afiados. À frente do grupo estava um garoto comum, de aparência calma, que os recebeu com um sorriso. 

— Bem-vindo de volta, Jovem Mestre Oz. E boas-vindas aos seus convidados nivarianos!

O jovem parecia bem interessado nos pares de orelhinhas peludas dos três jovens. Nada acostumado a ter suas orelhas nivarianas encaradas, Maali só franziu a testa. Yan, em contrapartida, segurou a mão de Nyan ao sorrir para o funcionário. E mexeu suavemente as orelhas a fim de atrair o olhar dele para si. 

— Esse moço trabalha diretamente para você, Oz?

— Joni é um dos nossos leva-e-traz internos. Você vai saber identificá-los pela medalha da família presa na roupa. 

— Você chama seu funcionário de leva-e-traz? — Maali indagou, estarrecido. Aquele, ele pensou, era um péssimo nome para uma função séria. 

Os portões se abriram antes que Oz elaborasse uma resposta. A grande loba Nix caminhava ao lado de Oz até então e só o deixou para trás quando a fresta aberta das portas já era larga o suficiente para a passagem de todos. 

Ela entrou, agitada, a cauda peluda balançando no ar até que se sentou no chão de pedra e uivou, com o focinho erguido para o céu. Maali primeiro sorriu, quando acreditou que era algum tipo de treinamento de recepção em Farkas, algum gracejo que Oz tinha preparado com aquela loba que quase parecia ter consciência de gente. 

Nesse instante, o segundo lobo começou a uivar, um pouco mais de dentro do Hall. E então o terceiro, de perto do portão, e mais outro, aos pés da escadaria. 

Maali espantou-se com a barulheira criada pelos lobos. Tão logo atravessaram os portões, puderam ver o número de animais uivando, que se aproximava de uma dúzia. 

— Eu acho que eles são mais altos que os alarmes de aviso de ataque Fronteiriço, Maali — Yan brincou, precisando erguer a voz um tom para se sobrepor aos uivos, mesmo que tivesse Maali a uma cabeça de distância. Nyan apertou seu braço, impressionado com o coro de lobos. 

— Calem a boca! — Shu gritou, perturbado. Do ombro de Yan, ele tapava as orelhas com as patinhas. 

— Todo mundo em Farkas é barulhento assim, até os bichos? 

Quando Maali ergueu a voz, soou como uma bronca, o tipo de reprimenda que tinha se habituado a oferecer para Oz como seu sênior nas dependências nivarianas. Ali, entretanto, em território farkasiano, a idade não o colocava acima do futuro líder na hierarquia. E o sorriso que Oz carregava no canto da boca deixava evidente que ele não se esquecia daquele detalhe. 

— Tenta não ser tão chato, raposo! Eles só estão felizes porque eu voltei! — Ele sorriu, o que deixou clara a intenção da brincadeira. 

Trazendo a mão até a boca, Oz deu um assovio de comando. Maali cobriu as orelhas com as mãos e estava pronto para reclamar, se todos os sons não tivessem sumido no instante seguinte. Assovio e uivos, todos se aquietaram. E então, com um movimento de mão de Oz, os lobos correram para o centro do pátio como um bando de filhotinhos, pulando e latindo ao redor dele. 

— Eles ficam bem menos ariscos aqui dentro. Yan, você gosta de bichinhos, né? Você vai adorar brincar com eles. Alguns são bonzinhos, tipo… — Ele espiou por cima do ombro em direção ao portão para se certificar de que não encontraria nenhuma presença desagradável. — Meu pai odeia que eu fale isso, mas tipo um bando de cachorrinhos. 

— Os lobos não mordem, então? — Yan perguntou em um gracejo. Segurava o riso agora, vendo como os animais tinham ido de uivos para silêncio e então para latidos animados. 

Não sabia dizer se os lobos tinham puxado a personalidade de seu dono ou se Oz, habituado a viver entre os lobos, tinha absorvido um pedaço de seu comportamento, mas era fato para Yan que eles quase pareciam um bando, capazes do comportamento mais dócil e de arrancar um braço em uma mordida depois de apenas um gesto. 

— Só com comando — Oz respondeu. A risada sem graça que segurou logo em seguida denunciava que respondera com o mesmo tipo de gracejo que ouvira na voz de Yan pouco antes. 

Ao seu lado, Maali estreitou os olhos. Oz pigarreou, achando que tinha cometido uma grande gafe: era seu noivo ali. Não podia se esquecer daquele casamento. E não queria que Maali o achasse um grande cuzão, mas era também estranho pensar que eles dois teriam sozinhos um laço que não incluiria Yan. Não parecia certo.

Era para Yan que Maali olhava, não para Oz. 

— Lobos são como raposas — Maali completou. Apesar da expressão séria, Yan sentiu que ele brincava. — Só menos espertos. 

— Ei, quem você tá chamando de burro? — Oz cobrou, manhoso. E Maali o respondeu primeiro com um revirar de olhos: 

— Eu nunca usei essa palavra — completou. 

— Do que vocês estão falando? 

Agarrado ao braço de Yan, seu irmão parecia confuso com os rumos da conversa. A resposta veio de Shu, e começou com uma risadinha debochada. 

— Vocês três aí ficam com graça na frente da criança! Esperava mais de você, Yan! E do raposo, que tem educação.

A falta de resposta de Oz, acompanhada de uma careta, era um forte indicativo de que se calara para evitar chatear Yan brigando com seu lagartinho linguarudo. 

Caminhando pelos largos corredores do Hall, Yan não pôde deixar de pensar no quanto tudo aquilo parecia fora de lugar. Tinha nascido em uma casinha afastada do Distrito nivariano, morado e estudado a vida toda na menor de todas as Cidades, um lugar onde líderes andavam normalmente entre os demais. Não havia pompa em Nivaria. A casa de líderes como os Tyr não era melhor localizada do que a que havia herdado de seu pai, nem mais luxuosa do que a residência de qualquer família de trabalhadores. 

Mas a residência dos Farkas era opulenta. Ocupava toda a região mais bem localizada da Cidade, era cercada por muros e portões, gigantesca como um grande monstro feito de pedra. E havia escadas em todas as direções. 

A maior delas, que já tinham visto de fora, levava aos aposentos dos líderes. Os de Oz ficavam em um meio-termo: nem alto demais para que se achasse já um líder, nem na altura de onde residiam convidados ou funcionários. 

Oz não chegou a levá-los até lá. Perguntou se gostariam de conhecer, mas foi imediatamente repreendido por Maali, questionando por que precisavam ser apresentados de imediato a um quarto que não era o deles. O riso sem graça de Oz encerrou o convite. 

As acomodações que receberiam Maali e Yan ficavam na residência Farkas e foram apresentadas por uma funcionária que os interceptou nos corredores. 

— Jovem Mestre Oz, esses são os quartos para seu amigo e o novo curandeiro da família — anunciou ela. E Maali se lembrou que não tinham ainda sido anunciados como noivos oficialmente. A distinção entre ele e Yan era um desconforto. 

— Eu acredito que você também possa se referir ao Yan como um amigo do seu Jovem Mestre. Ou estou enganado, Oz?

Oz assentiu, fazendo sinal para que ela não se alarmasse com a correção. Que Yan fosse tratado de cara como curandeiro oficial parecia com uma ordem de seu pai. Era até curioso que ele e Maali tivessem quartos vizinhos. 

Ao ver a dúvida nos olhos de Oz, a funcionária acrescentou:

— Foi uma solicitação escrita na carta do Mestre Farkas a de que os nivarianos fossem alojados perto um do outro. 

Soava como uma gentileza, mas vindo de Ravi, se assemelhava mais a vigilância. Yan sentiu as orelhas se flexionarem para trás, defensivas. Não teve coragem de contar para Maali que o líder Farkas tinha informações sobre sua família, e que as usou como moeda na oferta que o fez. Se aquele detalhe já conseguiu deixar até ele mesmo desconfortável, então Maali ficaria absolutamente perturbado. 

Precisava averiguar um pouco mais sobre as intenções dos farkasianos antes de confrontá-los. Isso era algo que fazia melhor do que Maali. Desejava, às vezes, que ele também conseguisse ficar quieto em certas ocasiões, ou parecer mais neutro. 

— Eu não devo dormir aqui hoje — Yan comentou depois de passear o olhar por seu quarto grande, porém comum. 

— E por que não? — choramingou Shu de seu ombro. — Tá querendo dormir onde? Na rua? Me deixa na cama macia primeiro, então. 

— Pra onde você vai? — Oz e Maali perguntaram em coro. 

Na voz de Oz, a pergunta tinha um peso de dengo muito parecido ao de preocupação que havia na de Maali. Yan gostou do tom de ambos e os respondeu com um sorriso calmo antes de indicar o irmão ainda enroscado no seu braço. 

Ele não era uma “criança” como Shu havia implicado, mas era tímido e nunca tinha conhecido nada muito longe de casa. Farkas era uma mudança grande demais para que o deixasse encará-la tendo companhia apenas da mãe. 

— Vou ajudar minha família na mudança. O Mestre Farkas me permitiu alguns dias. Vocês… acham que podem passar um tempo aqui sem mim? E sem socos, por favor?

O dia começava a findar e o calor de Farkas dava uma suave trégua. Yan passou a mão pela testa, aliviado por sentir que o suor parava de umedecê-la. Poderia tomar um banho na nova casa de sua família depois de ajudar Nyan a organizar suas coisas. E no caminho, ainda poderia observar que região era aquela onde Ravi os alojaria. 

— Não quer que eu te arrume um transporte? — Oz questionou, preocupado. 

— Ou uma escolta? — completou Maali.

— Eu gosto de andar — Yan respondeu. — E esta bela Cidade não me pareceu perigosa. Eu devia me habituar com os caminhos dela. Vocês não querem que eu me sinta em casa? Assim posso ficar por perto por um longo tempo. — Ele ergueu os cantos dos lábios e os dois se calaram. 

Havia mesmo muitas semelhanças entre lobos e raposas. 

Enquanto assistia Yan se afastar com Shu e Nyan pela trilha que levava de volta até perto da ponte, Maali suspirou. Queria que ele se sentisse em casa, que ficasse por lá, como tinha dito, por um longo tempo

Se precisava ficar em Farkas, então que fosse com Yan. Não ter ele por perto permanentemente parecia finalmente um cenário capaz de assustá-lo. Mais do que sair de Nivaria, mais do que um casamento. Assustava mais do que o peso dos arquivos roubados da Célula Matriz da Cidadela, agora escondidos em suas vestes. 

Seus pais o tinham criado para compreender seus motivos e cumprir com seu dever, mas acima disso o tinham criado para proteger Nivaria, mesmo que suas ações estivessem muito perto de serem lidas como traição. Aqueles arquivos não podiam ficar onde qualquer um pudesse encontrá-los. Incrivelmente, Maali achava que Farkas era o lugar mais seguro para eles, porque ninguém nunca pensaria em procurá-los por lá. 

Ele os manteria sempre onde fosse mais improvável, até ter certeza de que estavam seguros, de que era mesmo capaz de lidar com os farkasianos como seus pais imaginaram. Então poderia devolvê-los aos monges, mesmo que precisasse de anos para reconquistar a confiança deles. 

Continua…

No próximo capítulo… Yan foi ajudar Nyan e a mãe com a mudança, mas quem vai ajudar Oz e Maali? Um lobo e uma raposa conseguem se virar sozinhos por algum tempo?

O Capítulo 36  — Como um só chega em 14 de março de 2025

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