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💫 Pontes Imortais ― Capítulo 33
Eu tenho uma resposta
Boa tarde, habitantes do Vórtex! Voltei de férias e trago capítulo fresquinho pra vocês! Este capítulo marca o começo do Ato II desta temporada de Pontes Imortais! Segurem firme porque temos que entender como foi que as coisas desandaram completamente.
No último capítulo… Oz, Maali e Yan combatem um Fronteiriço de alto nível juntos enquanto Shu grita em desespero. Nem sei contar quantos protocolos nivarianos foram quebrados no processo. Será que vai dar B.O.?
Música-tema do capítulo: Our Youth, de Got7 (sigam a playlist oficial Pontes Imortais #2 no Spotify!)

Capítulo 33 — Eu tenho uma resposta

Nivaria, dois anos antes da queda da Cidade
— Eu estou decepcionado com você.
Aquelas palavras causaram em Maali bem menos impacto do que tinha imaginado que causariam. Mestre Inua deve ter percebido isso também, ou pelo menos se dado conta de que a postura de Maali continuava tão relaxada quanto estava quando Alika os deixou no Centro Comunitário, depois que o Distrito foi designado como zona segura novamente e os abrigos, liberados.
Na verdade, continuava tão relaxada quanto estava quando a monja os arrastou para fora da floresta, reforçando de tempos em tempos o quanto Maali tinha sido irresponsável ao ignorar suas ordens diretas para se aventurar ao lado de dois civis na caça a um Fronteiriço.
— Não retiro a responsabilidade de Oz e Yan ao ignorarem o sistema de alarme — Inua prosseguiu depois de respirar fundo, pesando suas próximas palavras.
Daquela geração, Maali era seu discípulo mais promissor. Tamanha imprudência não combinava com o seu feitio. Ou, se Inua fosse completamente honesto consigo mesmo, combinava até demais — e era onde morava o problema.
— Mas você é o monge e o caçador — ele continuou — e se isso não te comove, então vou lembrá-lo de que também é o mais velho e o responsável por qualquer coisa que acontecesse aos dois a partir do momento que ignorou o comando para recuar.
Yan teve a presença de espírito de tocar a mão de Oz tão logo percebeu que ele tomava fôlego para responder, e fez um gesto de negativa com a cabeça. Se abrissem a boca para falar agora só iriam piorar a situação de Maali.
— Nós derrubamos o Fronteiriço. — Ao contrário de Yan, Maali pelo visto não parecia tão inclinado a manter o silêncio como resposta. — Não sei que outro caminho deveríamos ter tomado depois de estarmos cercados por névoa.
A alternativa era deixar um Fronteiriço descontrolado chegar perto demais do Distrito. Maali sabia que tinha feito a escolha certa, mesmo que pelos motivos errados. Esse era um detalhe que ninguém precisava saber: avançou sobre aquele Fronteiriço porque queria caçar. Porque a adrenalina de puxar a flecha até o limite da tensão e dispará-la, o poder de atingir o alvo e ver um demônio cuspido pelo vórtex ser derrubado, eram todas coisas que alimentavam seu ego.
— O outro caminho era seguir as ordens da sua comandante antes de haver névoa ao redor de vocês, monge Tyr — Mestre Inua replicou, indignado. — As regras de caça existem para manter Nivaria em segurança. Se está se esquecendo como pensar coletivamente, então vou relembrá-lo.
Pensar coletivamente. Maali quase mostrou os dentes em resposta, a cauda se agitando de tal jeito que atingiu a cara de Oz, ajoelhado sobre a almofada logo atrás dele.
— Vai com calma aí, raposo! — ele resmungou, dando um safanão no rabo de Maali. — Mestre Inua, eu me enfiei naquela floresta porque quis, o Maali não tem nada a ver com isso não.
— Por essa razão, vou deixar nas mãos dos seus pais a escolha de disciplina que você receberá.
Oz reagiu com uma careta infantil, de súbito lembrando-se do machucado no rosto, fruto da mais recente violência do pai. Parecia-lhe que dias inteiros tinham se encaixado naquelas poucas horas, tantas eram as coisas que aconteceram.
— E quanto a mim? — Yan encarou o Mestre, tranquilo. — Ou talvez eu seja apenas uma vítima das circunstâncias…
— Você é muitas coisas, Yan. Vítima não é uma delas. Falarei com os seus professores antes de partir. Seu dom para trazer vidas de volta talvez esteja te fazendo esquecer que é mais valioso mantê-las.
Inua se levantou, e a lentidão pacífica de seus movimentos chamou a atenção dos três jovens. Olhando para ele da perspectiva em que estavam, ainda ajoelhados, a idade de Inua ficava bastante aparente. Estavam acostumados a viver muito — alcançar os mil anos sequer era raro em qualquer uma das Cidades. A ladainha de que a idade deixava as pessoas mais sábias nunca convenceu nenhum dos três, e essa era uma convicção que compartilhavam, embora nunca tivessem falado a respeito dela uns com os outros.
Mesmo assim, as próprias escolhas pesaram bem mais em cada um deles à medida que Inua se afastava. A tranquilidade conformada dos seus gestos tocava mais do que o discurso desapontado de antes.
— Quanto a você, Maali… Voltamos hoje para a Cidadela. Se a sua influência sobre Oz foi tão recíproca quanto a dele sobre o seu comportamento, então quero acreditar que ele já aprendeu o bastante conosco.
— Oz não teve nada a ver com o meu comportamento! — Maali replicou, crispando os lábios.
— Nesse caso, o silêncio meditativo vai te ajudar a colocar sob perspectiva a própria individualidade.
Inua estendeu a mão e o rapaz levou um momento para entender o gesto. Ele pedia seu arco.
— Mestre? — O rapaz apertou a arma, pousada no chão ao seu lado. Um caçador raramente se separava de seu instrumento de caça.
— Até segunda ordem, você está proibido de caçar. E não me olhe com tanta aspereza. Eu poderia ser mais rígido e remover uma de suas tranças, mas quero acreditar que você sempre vai me dar mais motivos para ter orgulho do que vergonha.
Com relutância, o nivariano entregou o arco. O metal verde-arroxeado emitia um brilho acabrunhado, dando a impressão de que a arma também sentia muito com aquela separação abrupta.
— Despeça-se de Oz antes de sair: você não verá a partida dos farkasianos.
Com aquilo, Maali percebeu que Mestre Inua ainda não estava ciente do cenário: que em breve seus pais anunciariam um casamento com o qual ainda não sabia se estava de acordo. Que em pouco tempo, deixaria de ser um monge e as portas da Cidadela não estariam mais abertas para ele. Pareceu certo subir Espinha de Cristal uma última vez e ceder à tranquilidade da meditação. Isso ajudaria sua cabeça a encontrar o prumo novamente.
— Maali.
O rapaz, que tinha se voltado na direção dos outros, espiou por cima do ombro, encontrando os olhos do Mestre, ainda parado à porta.
— Oz derrubou um Fronteiriço — Inua apontou, e só então saiu, deixando-os sozinhos na saleta em que tinham sido enfiados por Alika.
A gravidade que ele deixou para trás era sólida a ponto de ser cortada com uma faca. Tamanha seriedade sempre teve o condão de deixar Oz desconfortável. Ele se remexeu inquieto sobre sua almofada e, tão logo teve certeza que Inua tinha mesmo saído, comentou:
— Parece que eu choquei o velho… Ai! — resmungou em seguida, depois de ser atingido por um soco de Maali em seu braço. — Cê tá pegando gosto em me bater, raposo, porra!
— A gente precisa conversar — Maali disse, retomando a sisudez de tal forma que deixou Oz um pouco acabrunhado.
— A gente precisa é sair e levar mais passa-fora dos seus pais e dos meus — Oz retrucou, encolhendo os ombros.
Não queria encarar Ravi agora. Maali tampouco parecia disposto a falar com os pais naquele momento e se perguntassem para Yan, ele diria que estava bastante confortável naquela sala, ao lado dos dois.
— Por que vocês brigaram?
Aquilo tinha parecido tão súbito, tão desbaratado, mas Yan não esqueceu como Oz parecia disposto a esconder o que quer que fosse sob camadas de agitação. O machucado em seu rosto também servia como lembrança.
— Nós vamos casar.
Foi Maali quem respondeu, reto como quem arranca um curativo de uma vez para a dor durar menos.
Yan atravessou choque, surpresa e desgosto enquanto a boca se enchia de um azedume inédito, do tipo que deixa a língua pesada de saliva. A sensação de que poderia vomitar foi o que lhe forçou a se ancorar em calma, mesmo que o coração aos saltos se recusasse a obedecer. Nunca gostou que suas dores fossem assim tão óbvias.
— Não foi escolha nossa — Oz justificou, tentando se aproximar um pouco, mas Yan fez um gesto para que ficasse onde estava.
— Nossos pais nos comunicaram isso hoje — Maali completou. A expressão desnorteada suavizou seu rosto, fazendo com que parecesse mais jovem do que era.
— E vocês não podem… recusar?
Yan sabia a resposta antes que eles dissessem qualquer coisa. É claro que não. Ser filho de um líder era, acima de qualquer coisa, uma posição política. Se os Tyr, conhecidos por se envolverem tão pouco nas decisões de relacionamento dentro do próprio clã, tinham dado aquele ultimato a Maali, então não havia outra opção. E mesmo que os dois recusassem… O que aconteceria depois? Não era como se ambos fossem ficar com ele.
Para Yan, o convite dos Farkas começava a ganhar novas nuances. Mais cedo, tinha pensado em dividir suas dúvidas com Oz para dar vazão aos pensamentos agitados. Agora sentia-se quase grato pela interferência daquele Fronteiriço. Parecia melhor que ponderasse primeiro dentro do próprio coração. No fim das contas, sempre confiou mais nas próprias escolhas do que no que os outros acreditavam ser melhor para sua vida.
— Sabe… Vocês não vão gostar de se olhar no espelho agora — acabou falando, e a risada que ofereceu aos dois abrandou seu próprio olhar.
Os cachos de Oz tinham virado uma bagunça babélica, suas mãos manchadas com o azul profundo do sangue do Fronteiriço. Maali não estava muito melhor, com galhinhos e folhas secas presas aos cabelos e na ponta felpuda do rabo, e a túnica destruída.
— Aposto que eu continuo bonitão — Oz emendou, e os outros dois não conseguiram não rir de seus modos infantis. — Ei, raposo! Sabe o que dizem por aí?
— O quê?
— Lá em Farkas, os velhos costumam falar que não tem como duas criaturas não se entenderem depois de se machucarem juntas.
— É uma fé meio burra… — Maali emendou, sorrindo tão logo o farkasiano ameaçou abrir o berreiro para resmungar. Oz achou adorável a forma como os olhos dele quase fechavam quando ele sorria assim. — Mas acho que pode ter um fundo de razão. Às vezes.
Maali bateu no chão ao seu lado.
— Vem aqui.
— Pra quê? — Oz questionou, desconfiado. Yan, por outro lado, já parecia ter entendido as intenções de Maali, porque respondeu:
— Você derrubou um Fronteiriço, lembra?
— E…?
— Sua trança. — Maali revirou os olhos, fingindo impaciência.
As tranças costumavam ser carregadas por monges, afinal eram eles na linha de frente das caçadas. Isso nunca foi um impeditivo para que civis recebessem aquele troféu, embora fossem casos mais raros. Oz assentiu quando entendeu do que falavam e quase pareceu se animar com a ideia. Quase.
A pontada de dor que sentiu no rosto fez o rapaz lembrar-se do pai. De como Ravi tinha bem pouco respeito pelas tradições alheias, mesmo que soubesse parecer aberto e amigável diante de outros líderes — especialmente quando estava sob a mira do olhar daquele tal Instrutor. Se aparecesse diante de Ravi com tranças nivarianas, daria a ele motivos para jogar contra Maali palavras que não gostaria de ouvir.
— Olha… — ele começou a falar, mas suas explicações ficariam para depois.
Uma mão pesada bateu na porta, que se abriu em seguida sem qualquer cerimônia.
— Vai ficar trancado nessa sala pelo resto do dia, garoto? — A voz de Ravi retumbou incômoda, terminando de romper o conforto que tinha se estabelecido entre os três. — Tem gente lá fora querendo agradecer ao heroi!
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— Aqui está perfeito. Muito obrigado.
Yan ofereceu ao guerreiro um sorriso apenas discreto quando ele lhe estendeu a mão para que descesse da montaria. Era um discípulo farkasiano, do punhado que Farkas havia trazido quando atravessou a ponte.
Tinha um olhar que inspirava pouca confiança, Yan achou, mas não foi capaz de negar a carona quando Ravi o viu se desviar do grupo para tomar a trilha que levava à casa de sua família.
Não queria ficar na presença dele, principalmente com Oz e Maali por perto. Achava que Ravi era o tipo de criatura capaz de pressioná-lo pessoalmente sobre a resposta para o convite que fizera. Yan não queria que fosse pelas palavras dele que Oz e Maali viessem a saber sobre aquilo. Especialmente, dadas as novas condições, não queria que viessem a saber de nada sem que tivesse se decidido.
Quando Ravi ofereceu que seu discípulo o acompanhasse até em casa já que pareciam estar tomando o mesmo caminho, negar parecia despropositado e rude, ainda que aquele fosse um caminho que estivesse acostumado a fazer a pé.
Tentou ser deixado no fim da trilha para que a escolta improvisada não chamasse atenção de sua mãe. Ela ficaria enlouquecida se visse que o líder de Farkas oferecera um guerreiro pessoal para acompanhá-lo até em casa, como se aquilo fosse a prova de alguma nova regalia que receberiam.
Queria ter a chance de falar com ela e Nyan sem que Jiao o visse chegar, mas seus planos morreram ao ver a mãe parada diante da porta, acompanhando enquanto ele se despedia daquele guarda, com um sorriso de orelha a orelha e uma camada extra de brilho nos olhos aruvianos cor de marfim.
— Foi Ravi quem te mandou uma escolta, querido? Ou o filho encantador dele?
— Boa noite, mãe — respondeu, sério, ajeitando a bolsa de viagem transpassada no corpo. — Você ouviu o alerta de Fronteiriço mais cedo?
— É claro que ouvi! O sistema de alerta foi acionado em todo o território, mas me pareceu que o ataque foi bem mais perto do Distrito, não foi? Como estão as coisas por lá? Não era importante você estar lá agora, como curandeiro?
— Nivaria não tem só a mim.
Não tem, mas Yan tinha feito questão de cuidar da queimadura de Maali antes da bronca que tomaram. E ele próprio, Shu e Oz não haviam se ferido desta vez.
— Você estava perto do local do ataque, querido?
Sua mãe tocou seu cabelo, evitando que os dedos dessem de encontro com suas orelhinhas nivarianas. Sempre fez isso, como se a incomodasse que seus filhotes tivessem um traço nivariano tão mais óbvio do que os olhos herdados de Aruvi. Aquilo já o enervava quando seu pai era vivo. Desde a morte dele, se tornou um detalhe ainda mais indigesto.
Pensou em sorrir e pontuar como ela não fazia ideia do quão perto ele próprio tinha estado do local do ataque. Saber que Yan estivera em plena caça de um Fronteiriço podia muito bem ser a razão de uma noite de pesadelos para Jiao. Contudo, não teve tempo de narrar sua mais recente aventura antes de Nyan aparecer na janela da cozinha, cujo vidro havia acabado de desembaçar com um esfregão.
Ele sorriu e acenou. E tudo o que Yan pôde pensar em fazer foi sorrir de volta. Era sempre Nyan a lembrá-lo de que certos assuntos eram melhor postos em ambientes pacíficos. E o que tinha na manga era certamente um desses.
— Eu vim hoje mesmo porque preciso conversar com vocês. É um assunto importante.
— É claro, querido. Claro! — respondeu Jiao animada. Tinha deixado de lado o assunto do Fronteiriço com a mesma facilidade com que deixara instantes antes a escolta, como se aguardasse algo grandioso, bom demais para que perdesse tempo com quaisquer tipos de trivialidades. — Podemos conversar enquanto jantamos. Seu irmão e eu estávamos sentindo que você viria. Ele deve estar tirando agora mesmo a torta de especiarias do forno. É uma das suas favoritas, não é?
A torta era mesmo uma de suas favoritas. Quando saía do forno, a pequena casa se enchia prontamente com o cheiro quente de especiarias assadas, como acontecia quando seu pai cozinhava. Em todas as vezes, Yan pensava que aquele era um dos aromas mais próximos do cheiro de infância.
Sua mãe, por outro lado, se aborrecia com o aroma. Como naquela hora, ela tinha sempre o reflexo de abrir uma pequena fresta da janela, não importava quão frio estivesse lá fora. Jiao costumava dizer que o odor do leite azedaria o ambiente depois de algumas horas, que impregnaria as cortinas e se tornaria enjoativo.
Esse tipo de queixa tornava a escolha do cardápio um tanto mais inusitada. Ela não só sentia que ele viria. Jiao parecia ter absoluta certeza da visita do filho, como se soubesse de algo.
— Quanto você acredita em coincidências, Yan? — Shu sussurrou do seu ombro quando Yan ofereceu-lhe um pedacinho de torta.
Ele tinha um ponto, ainda que não pudesse discuti-lo agora na frente dos dois. Podia só ir direto ao assunto e deixar de lado qualquer clima injustificado.
— Eu recebi um convite — Yan anunciou depois da terceira mordida de torta.
O sabor das especiarias se espalhou pela boca. Ao seu lado, Nyan parecia ansioso por algo. Yan não sabia dizer naquele momento se era por detalhes do que havia acabado de dizer ou a expectativa por receber elogios ao prato.
— E você já sabe sua resposta, querido?
Yan ergueu as sobrancelhas. Aquela era a primeira pergunta de sua mãe. Nada sobre a natureza do convite, mas sobre sua resposta.
— Ei, Yan! Em cima daquela cômoda — Shu sibilou e os olhos de Yan se guiaram ao móvel de imediato.
A fresta da janela soprava o ar frio de Nivaria para dentro da sala, espalhando suavemente o aroma de especiarias. Bem abaixo dela, a cômoda de madeira exibia uma peça em vidro colorido que Jiao havia ganhado anos atrás. Era rasa e arredondada, como um meio termo entre prato e vaso. E dentro dela, num espaço frequentemente mantido vazio, estava uma carta.
Nem podia ver o selo de cera que a fechava daquele ângulo, mas tinha o mesmo tom índigo forte do selo da carta que recebera de Ravi. Yan respirou fundo.
— Quando receberam a carta? — perguntou sem muita emoção.
Ao menos, não visível. Por dentro, seu peito era fogo o bastante para derreter o gelo dos dias mais frios. Até outro dia, jamais teria considerado a ideia de morar em qualquer canto longe de Nivaria. Farkas — acima de todos — parecia um destino bem pouco provável.
Mas Yan não era ignorante nem pouco versado na política das Cidades Flutuantes. Tinha tido tempo o bastante para revirar livros da biblioteca, entre os ensinamentos dos mestres, e para conversar com o casal de antigos conselheiros de Nivaria que vivia na casa ao lado de onde ficava no Distrito. Entendia, ainda que não profundamente, como funcionavam os arranjos políticos entre uma Cidade e outra.
E nunca, em toda a história de seu mundo, um herdeiro farkasiano havia abandonado Farkas para viver em outro lugar, mesmo que casado com a liderança de outra Cidade.
Ser a intersecção das pontes tinha dado a Farkas o status de centro do mundo, de que os farkasianos não pareciam inclinados a abrir mão.
Não apenas Oz voltaria para casa em breve, mas, se ele e Maali casariam e isso estava definido, então Maali também teria que eventualmente se mudar. E começaria a vê-lo ainda menos do que quando subiu aquela montanha de gelo para se formar como monge.
A carta de Ravi havia chegado até sua mãe pela manhã, soube. Yan deixou os olhos correrem pelo misto de construções diretas — que pareciam coisa do líder de Farkas — e palavras rebuscadas, claramente escolhas de algum funcionário para florear a forma como seu líder se comunicava.
Ravi oferecera-lhe coisas interessantes: status de curandeiro oficial da família Farkas, moradia no Hall da Conflagração, presença junto a líderes e diplomatas, tudo custeado pela liderança farkasiana. Não era só uma oferta interessante, mas quase irrecusável, mesmo se excluísse Oz e Maali da equação.
O que ele oferecia à sua família já começava a deixar Yan ressabiado. Era bom o bastante para tornar qualquer convite uma intimação. As últimas palavras eram tão bem colocadas que deixaram Yan desconfortável. Farkas tinha conhecimento demais sobre sua família.
— Um curso de preparos culinários para você? — perguntou, oferecendo a Nyan um calmo sorriso.
Aquele era o sonho do seu irmão. Não sabia como Farkas tinha tido acesso a tal informação, mas era desconcertante, como se a qualquer momento fosse descobrir que tinham infiltrado um farkasiano em sua casa.
— Não é incrível? Você realmente chamou a atenção do Líder Farkas! — sua mãe exclamou, se levantando agitada e voltando a passos rápidos com uma garrafa de licor fino. — Isso pede uma comemoração.
— Eu ainda estou ponderando. — Yan achou de bom tom avisar. Viu a forma como a expressão animada de sua mãe se converteu na hora em confusão.
— Ora, e o que mais há para ponderar?
Jiao deu a volta na mesa, bem onde Yan estava, e pousou a garrafa ao lado do prato já vazio antes de tomar o rosto do filho nas mãos. Yan achou que o jeito como ela acariciou seu rosto não foi como uma mãe acariciaria um filho, mas como uma pessoa gananciosa acariciaria uma joia rara e valiosa.
— Não é o nosso sonho subir na vida, querido?
Yan espiou o irmão pelo canto dos olhos conforme ouvia as palavras da mãe. Não, aquele nunca tinha sido o sonho deles, não dessa forma compartilhada que sua mãe dava a entender no mel que escorria de suas palavras. Não como cúmplices. Aquele era o sonho dela. E nem precisava se forçar muito para saber que era — de um jeito mais discreto — também o dele. Mas nunca havia sido um sonho familiar.
— Uma casa melhor para a sua mãe, estudos para o seu irmão, você entre líderes e perto daquele adorável jovem filho de Ravi que parece tão disposto a te dar atenção. Que outra resposta poderia pular da sua língua que não um “sim”, filho? Eu sei que você ama Nivaria, mas vai enterrar todas essas coisas na neve?
Sua mãe nunca gostou de Nivaria. Tinha se mudado para lá por conta de um casamento, para ter a mesma leve ascensão social que sonhava em viver de novo desde que ele e Nyan atingiram alguma idade. Jiao não era leal a terra nenhuma. Gostava de se gabar de ser nascida e criada em Aruvi só pela aura de mistério e exclusividade que sua terra natal concedia.
Yan pegara a trilha para falar com eles porque achou que, caso se mudasse para Farkas, o faria sozinho. Queria ver a reação do irmão e, se achasse que sua escolha o deixaria muito triste, seria capaz de abrir mão dela. Por ele e mais ninguém.
Mas tudo tinha mudado no instante em que soube que Farkas o havia incluído na negociação.
Amava Nivaria, mas se podia ter Oz, Maali e Nyan em Farkas, então sua terra se parecia mesmo apenas uma gigantesca bola de neve. Pensar assim fazia Yan perceber que tinha mais semelhanças com a mãe do que gostaria de admitir, e esse pensamento o fez franzir o nariz.
— Você gosta da ideia? — perguntou, virando o foco da conversa para Nyan depois de se desvencilhar das mãos da mãe com um abanar de cabeça gentil.
— Eles têm ingredientes quase impossíveis de conseguir por aqui. E por mais que a maioria dos livros de técnicas culinárias e preparos tenha sido escrita aqui em Nivaria…
— A prática ainda é mais executável fora daqui — Yan completou, sabendo as palavras. E então suspirou. — A culinária é muito parecida com a cura nesse ponto.
— E eles têm lobos! — Nyan acrescentou antes de sorrir.
Para aquele argumento, Yan revirou os olhos de um jeito divertido.
— Como pude me esquecer dos lobos?
Deixou escapar mais um suspiro e apoiou sobre a mesa os cotovelos antes de deitar o queixo nas mãos. Seus dedos roçaram em Shu, quieto sobre seu ombro.
— O que te sobra é uma questão moral, Yan: o particular ou o coletivo — ele começou, cutucando Yan no pescoço. — Em Farkas, você teria dinheiro e influência e ia poder ficar na cola do lobo barulhento e do raposo estressado. Quem sabe eles até não te pedem pra levar as flores durante a cerimônia?
Com um suspiro irritado, Yan balançou o cabelo para calá-lo sobre aquela parte. Shu se segurou para manter-se firme em seu ombro.
— Ou você pode tentar conquistar os dois e se enfiar em um casamento político, ué? — Shu prosseguiu. — Não seria eu a te impedir. Mas foi Nivaria quem te deu todo o conhecimento que tem em cura, estou errado? Não acha que deve muito a este lugar aqui, não? O bastante pra abrir mão de certas regalias e firmar raízes?
Era um ponto importante. Devia, certamente, tudo o que era a Nivaria. Se os mestres curandeiros o educaram e treinaram na arte da cura era para que tivessem suas mãos a serviço de sua terra acima de qualquer outra coisa.
— Você tem razão. É uma questão moral — concedeu, assentindo gentilmente com a cabeça para que Shu visse que falava com ele antes de erguer o olhar e com ele a voz. — Eu tenho uma resposta.

Continua…
No próximo capítulo… A mudança de Maali para Farkas por consequência de seu futuro casamento com Oz parece inevitável. Mas ele pode ir de mãos vazias?
O Capítulo 34 — Ponto Fraco chega em 28 de fevereiro de 2025!
Estamos voltando de férias e teremos um bloco de capítulos novos semanalmente, sem interrupções da Bunny Hour!
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